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O tédio é um labirinto sem murosBoredom is a labyrinth without walls

A vontade de escrever sobre o tédio veio depois que uma metáfora visual definiu, pelo menos para mim, o significado nebuloso que o termo tem. Na ocasião eu percebia recorrentes manifestações de tédio na rede, como se as pessoas estivessem obrigadas a se entendiar, mas o primeiro contato com a tela em branco para esmiuçar o assunto foi de apreensão e desnorteamento. Depois de uma pesquisa vou tentar sintetizar o que entendo e sinto sobre o tema.

Alongamento ou encurtamento do tempo?

É costume sentir-se entendiado quando o tempo parece alongado, horas que parecem dias, dias que parecem semanas, semanas que parecem meses. O tempo arrastando-se através do cotidiano esvaziado de significado ganha um significado dilacerante, combinado com um estado da mente menos equilibrado ou coincidências infelizes, esse momento pode levar a soluções e atitudes irreversíveis, mas se analisado sobre outra perspectiva, essa experiência do tempo desprovido de sentido, pode dar um significado acelerador do fluxo do tempo quando visto em perspectiva, “quando um dia é como todos, todos são como um só” (Thomas Mann, A montanha mágica). O que se arrasta para passar quando experimentado no cotidiano, será visto em bloco na perspectiva histórica. Um bloco, geralmente, chamado “tempo perdido”.

A ampulheta do tempo tedioso acumula um monte de areia sem valor para a biografia das pessoas, em busca do tempo perdido o ser humano cometerá todo tipo de atitude.

O tédio como razão

“A maoria das pessoas faz coisas por puro tédio, algumas se apaixonam por tédio, outras são virtuosas, outras ainda dissolutas. Quanto a mim, absolutamente nada – não tenho vontade sequer de levar minha própria vida, é entediante demais.” (Büchner)

O tédio é a origem de tudo. Todos passaremos por momentos tediosos, cabe ao ser humano decidir se o tédio será origem de virtudes ou de vícios, para sair um ser mais evoluído do labirinto do tédio é necessário (auto)conhecimento, otimismo e um pouco de habilidade na arte de equilibrar doses de adaptação e superação. O imperativo do tédio é o desafio do Ser, a infância precisa ser um tempo sem tédio, onde a curiosidade e as constantes novidades tornem as crianças capazes de superar a angústia do tédio futuro.

A ditadura da novidade

Cada dia é um novo dia e ele nunca se repetirá, apesar disso o que torna os dias similares ao ponto de não vermos eles passarem? A falta de sensibilidade. Precisamos ignorar algumas coisas para seguirmos em frente encontrando outras, ao mesmo tempo, ignorá-las pode, paradoxalmente, nos privar da sensibilidade necessária para aquilo que é novo, ou mesmo daqueles momentos de êxtase já experimentados que a vida coloca novamente em nossa frente. A razão moderna é uma razão científica que jamais encontrará uma matemática para balancear esse tipo de equação, não existe fórmula para viver uma vida apaixonante, mas existem caminhos para isso.

O tédio como ferramenta de consumo

A propaganda vende algo além do produto em si, ela oferece a felicidade numa bandeja. A vida é então substituída pela imagem da vida. A mercadoria é a pílula da salvação existencial, nos comerciais de carros não são mostrados engarrafamentos, a rede de fast food não mostra obesidade e o refrigerante sobrecarregado de açúcar mostra sorrisos clareados e corpos esbeltos. Alguns comerciais mais sarcásticos até fazem chacota da rotina de trabalho que lhe habilita a ser um consumidor respeitável, para lembrá-lo que existe uma saída para o tédio nas pratileiras. Mas o consumo é passivo demais para alavancar a vida dos entediados, seu efeito muitas vezes é tão rápido quanto os comerciais de televisão.

O amor como antídoto

Apaixone-se. 

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