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Estrutura do Poema Visual Concreto

Com o intuito de difundir a importante produção dos poetas concretos brasileiros, serão apresentadas nessa pesquisa análises de sete poemas visuais com a ajuda do Roteiro de Leitura, obra do poeta Philadelpho Menezes. Através dos exemplos citados pelo Roteiro, podemos visualizar as características constitutivas do poema visual concreto mais facilmente.

A primeiro legado dos artistas concretos foi a tradução dos mais importantes poemas estrangeiros, fato que auxiliou a criação dos parâmetros normativos do movimento que, por sua vez, pode ser entendido como uma poética de resistência ao imobilismo da literatura convencional e à massificação da cultura.

Em princípio, a poesia visual concreta queria se distanciar da poesia figurativa. Para os concretos, a estrutura desses poemas era evidentemente imposta ao poema, como uma embalagem vazia onde as palavras completam sua forma. O Concretismo buscou referências em diversos pensadores, a exemplo de Ezra Pound, Edward Estlin Cummings, James Joyce, Stéphane Mararmé, e do poeta brasileiro Oswald de Andrade.

Segundo Philadelpho Menezes (1998), podemos notar a utilização de referências de poemas já existentes, no caso, referência aos poemas clássicos, que determina uma característica do concretismo, a metalinguagem. O poema “ovonovelo” de Augusto de Campos é um exemplo dessa característica. Ele manteve a forma figurativa referente ao poema de Símias de Rodes (325 a.C.), montando um discurso sobre a transformação do velho no novo pelo princípio da circularidade ovo-novo-novelo, velho.

Ovonovelo, Augusto de Campos (1956).

Tratando da análise dos sete poemas, começamos pelo poema “nascemorre”, de Haroldo de Campos. Podemos notar a simetria (geometria como base) das formas triangulares e a circularidade do poema, que trata da vida e morte se sucedendo pelas palavras e sílabas que se formam.

Poema “nascemorre”, Haroldo de Campos (1958).

“Isso é mostrado na estrutura concisa do poema: o “re” da palavra “renasce” surge da palavra “morre”, enquanto a conjunção “se” sai de “nasce””, comentou Philadelpho Menezes (1998, p. 70).

O poema “pluvial”, de Augusto de Campos, possui palavras sonoramente semelhantes. “Pluvial” verticalmente caindo como chuva, e “fluvial” horizontalmente correndo como o rio, que simetricamente estruturam o poema. Philadelpho Menezes (1998, p. 71) diz que “não se trata de uma representação figurativa da chuva e do rio, já que o poema é, antes de mais nada geométrico, portanto dotado de uma forma abstrata”.

Poema “pluvial”, Augusto de Campos.

O poema “terra”, de Décio Pignatari, mostra preocupação com temas politicamente corretos, antecipando uma característica trabalhada a partir de 1962, quando o grupo Noigandres propôs o “salto participativo”, uma forma de engajamento em fatos da vida moderna (greve, reforma agrária, fome). Contudo, a estrutura simétrica se manteve. “Percebe-se aqui as palavras realizando aquilo que dizem: estão arando a página como se fosse terra; nesse caso específico, o poema lembra muito a forma do poema figurativo, mas ele é essencialmente autoreferencial, pois são as próprias palavras que fazem a aradura da página”, comentou Philadelpho Menezes (1998, p. 101).

Poema “terra”, Décio Pignatari.

O poema “beba coca cola”, de Décio Pignatari, critica a indústria do divertimento através das palavras que extrapolam o sentido publicitário. “Novamente vemos a preocupação com temas da vida moderna, na forma de crítica ao capitalismo norte-americano; ele não é tão rigorosamente geométrico, mas seu texto está trabalhado dentro da estrutura de permutação matemática na ordem das letras do slogan da Coca-Cola”, comentou Philadelpho Menezes (1998, p. 100).

Poema “beba coca cola”, Décio Pignatari.

O poema “vai e vem”, de José Lino Grunewald, desmonta o sentido de leitura ocidental que se dá da esquerda para direita e de cima para baixo. “O poema fala da própria circularidade de leitura, montado num quadrado que pode ser lido de qualquer ponto, em qualquer direção, em vaievém constante do olhar”, analisou Philadelpho Menezes (1998, p. 99).

Poema “vai e vem”, José Lino Grunewald.

O poema “sem título”, de Ronaldo Azeredo, possui uma relação de semelhança com a estrutura do movimento do sol, de leste para oeste, do horizonte à perpendicularidade dos raios solares ao meio dia, e, novamente, ao horizonte até desaparecer. “Quando se põe inteiramente, sobra um “s” no final da última palavra “rua”: tanto pode ser de “ruas”, mostrando o silêncio da noite vazia, quanto do próprio sol começando a renascer no seu ponto inicial”, comentou Philadelpho Menezes (1998, p. 72).

Poema “sem título”, Ronaldo Azeredo.

O poema “sem título”, de José Lino Grunewald, produzido em 1960. Philadelpho Menezes (1998, p. 69) conta que “o poema cria movimentos no poema, tanto de giro no eixo central, que é a palavra “transforma” permutando as duas metades do poema, quanto de deslocamento horizontal da palavra “forma”, que ao fim do movimento centraliza-se novamente; a idéia de circularidade é também reforçada pelo fato de que não há início ou fim no texto”.

Poema “sem título”, José Lino Grunewald.

Esses exemplos deixam claro que o Concretismo utilizou regras internas precisas e até rigorosas na construção dos poemas visuais, que se tornaram artefatos polissêmicos requalificadores do objeto artístico na sociedade – ora se refere aos produtos industriais da cultura ocidental, ora se refere aos poemas clássicos e, posteriormente, aos temas politicamente corretos.

De outra maneira, algumas particularidades foram reafirmadas, como a utilização da palavra como base do poema, fato que manteve um certo nexo à leitura facilitando o reconhecimento das palavras por parte do leitor. Sendo a palavra a base do poema e não um sentimento ou uma coisa, os poetas estavam livres para escolher os temas mais convenientes.

A poesia visual do Movimento fortaleceu uma ideologia experimental em busca de inovação, explorando a transformação das tradições sociais e dos modos de produção de acordo com a revolução tecnológica. Por fim, o Concretismo colaborou decisivamente para a experimentação dos poemas digitalizados, das animações gráficas, da poesia sonora, e dos processos de design focados na criação de interfaces.

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