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Desviar é preciso

O desvio ou détournement é uma prática desenvolvida e pensada pela Internacional Situacionista nos anos 50/60, daquilo que foi teorizado e praticado para o que acontece hoje, passou muita água por debaixo da ponte da história. Esse post pretende analisar um pouco do desvio situacionista, sua teoria, prática e contexto histórico.

Identificado pelos situs como um recurso já praticado em Marx (1818-1883), por exemplo na resposta Miséria da Filosofia ao texto de Proudhon Filosofia da Miséria, onde o desvio do título de Proudhon já serve de primeiro golpe na resposta fulminante de Marx, foi sistematizado na literatura com Lautréamont (1846-1870), para então ser disposto ao público pela I.S. (1957-1972).

(Filme desviado Pode a dialética quebrar tijolos? – 1973)

Definido no vocabulário paródico como abreviação da fórmula “desvio de elementos estéticos pré-fabricados”. No guia  para a utilização do desvio, fica explicito que tudo é permitido. “Pode-se usar qualquer elemento, não importa donde eles são tirados, para fazer novas combinações (…) A interferência mútua de dois mundos de sensações, ou a reunião de duas expressões independentes, substitui os elementos originais e produz uma organização sintética de maior eficácia.”

O original, a arte como um propósito elevado, a linguagem “dominante” como sustentadora do poder, etc. são os principais alvos da teoria do desvio, seu campo de batalha. Nas palavras cativas de Mustapha Khayati “A crítica da linguagem dominante, seu desvio (détournement), será a prática permanente da teoria revolucionária”. Nessa prática nega-se o papel de receptador passivo seja da linguagem, cada vez mais a serviço da burocratização, ou seja da propaganda, cada vez mais generalizada e onipresente. O desvio é uma ferramenta para comunicar, para exercitar a desobediência e a negação, uma resposta dialética para uma linguagem e propaganda que ignoram cada vez mais a existência de respostas dialéticas.

Mas o que era um projeto revolucionário de vanguarda, muitas vezes serviu de ponta de lança do próprio sistema que criticava, já no guia de utilização do desvio, ficou entendido o poder de propaganda da técnica do desvio, mesmo não sendo um perito do assunto, me parece que a propaganda tem limitações comunicacionais, mesmo a anti-propaganda ou a propaganda desviada carrega uma mácula espiritual da matriz. As vezes é na própria justificativa do desvio que fica evidente algumas sintonias com as práticas daquilo que criticam. A necessidade do constante surgimento de novidades foi exposto na época do Guia como uma imperativo do desvio revolucionário conhecendo o pensamento da IS, esse imperativo da novidade é qualitativamente diferente da ditadura da novidade do capitalismo em si, mas como a propaganda pode agradar a gregos e troianos, o desvio amplamente praticado fugiu bastante dos propósitos da IS, ele foi parar em estampas de camisas em mensagens de duplo sentido que geralmente reforçam duas marcas ao invés de uma.

 

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