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Uma longa estrada chamada praia

No começo de 2009 eu tinha umas parcelas do seguro desemprego para receber e o FGTS para resgatar. Planejei uma viagem de 3 meses (abril, maio e junho) que pretendia chegar até o Maranhão, em março hospedei um amigo que pagaria um aluguel simbólico e cuidaria do meu cachorro enquanto eu estivesse viajando. Os três meses viraram dois, fiquei praticamente esses dois meses apenas na Bahia, os alugueis que eu receberia viraram lenda e meu cachorro precisou ficar na casa do meu pai.

Nessa viagem tentei pegar caronas e caminhar por longas praias solitariamente com meus demônios. O resultado foi uma viagem inesquecível que tentei contar num blog, mas reunido e revisado aqui pela primeira vez.

Vitória – Regência

Cheguei à Regência quinta-feira trazendo comigo o vento sul e o outono. O ônibus de Vitória pra cá custou R$ 24,00 e o simpático motorista não me deixou no trevo para Regência. Essa gentileza além de me custar mais uma passagem, impossibilitou qualquer chance de carona. De Linhares para Regência gastei mais R$ 11,50. A praia aqui não é tão salgada por causa da influência do Rio Doce, mas o mar é insanamente agitado, bom para surfistas com disposição. Não tive coragem de nadar naquelas águas, mas arrisquei uns mergulhos. Não existe muita coisa além da praia e da pesca e fora de temporada, a maioria dos campings ficam fechados, soube que teve um forró no sábado, mas estava cansado.
Com o fim do tabagismo duas coisas aconteceram com meu corpo: estou sentindo melhor os gostos e aromas e agora me deparo constantemente com situações “tabagísticas”, momentos “bons”para fumar. Minha ex-amiga de toda hora, a nicotina, agora virou um fantasma camarada. Já havia pensado sobre o fim do vício numa frase (“parar com um vício faz você se sentir forte, se entregar a ele faz você se sentir acompanhado”) e essa sensação de força aconteceu mesmo! Aqui em Regência corri na praia todos os dias quando não ajudei os pescadores a mirarem as redes e esticá-las na foz do rio. No dia que fiquei de ressaca perdi uma moqueca que o pessoal fez no barco, não sei porque mas tenho a impressão que essa moqueca de barco é a melhor que existe.
Aqui fiz amizade com essa “classe”, não sei se é a influência marítima, mas não vi um pescador sequer, que não fosse engraçado. E como eles gostam de pinga! Eu corria de manha e me matava na pinga de noite.

Regência – Itaúnas

Peguei uma carona até Linhares e um ônibus até o trevo de Itaúnas, mais uma carona até a vila. Uma semana em Itaúnas fora de temporada pode fazer você pensar nas propriedades “elásticas” do tempo, ainda mais se a chuva visita o acampamento com frequência. Eu não sabia o que fazer lá, acredito que a maioria das pessoas não sabem o que fazer por lá, num sentido mais existencialista da coisa. Digo isso porque vi muita ociosidade sem criatividade e um clima de descontentamento, mas sem alternativas, não quero parecer juiz de nada, mas fiz isso aqui para compartilhar minhas impressões e aqui estão elas. O turismo é cíclico, mas a existência é contínua, se a cidade não souber criar alternativas para a entre-safra, algo sustentável, outros problemas surgirão além dos econômicos, vide a extração de areia ilegal, degradação ambiental, entre outros.

Um desses dias em Itaúnas caminhei para Riacho Doce (divisa ES/BA) e na volta vim correndo por causa da lenda da maré alta prender pessoas na praia deserta, isso me custou uns 3 dias com a perna doendo um bocado. De Itaúnas para Riacho Doce são entre 6 e 7 km e ainda não tenho preparo para correr 7km na areia, ainda mais quando esqueço de alongar minhas juntas tortas. Fiz outras caminhadas terapêuticas na praia, junto com um “tai chi chuan” marítimo para recuperar a batata da perna direita prejudicada na corrida. Também fiz uma fogueira na praia para melhorar a arte do fogo, é legal acender uma fogueira no meio da areia, com madeiras que o mar trouxe para a praia e o sol se encarregou de secar, você se sente em conexão com algum antepassado que conseguiu transferir a carga genética dele numa época bem mais selvagem que a nossa. Em Itaúnas fiz amizade com um monte de velhos com tendência para o alcoolismo o que facilitou a comunicação e a embriaguez.

Acho que Itaunas está um pouco decadente, não sei dizer, talvez seja a baixa temporada, não sei. A juventude é legal, mas sem perspectiva e os velhos parecem já ter olhado para o abismo e o abismo parece já ter olhado para eles.
Aqui tive o desprazer de ler “o apanhador no campo de centeio” da biblioteca do Parque Estadual de Itaúnas, uma bela biblioteca, diga-se de passagem. Mas esse é o livro cujo protagonista é, entre todos os que eu conheci na literatura, o cara que mais reclama da vida. Tudo bem, não fosse um jeito pequeno-burguês chato pra caralho de reclamar da vida. Quase terminei também “a muralha da china” do Kafka, mas a chuva parou de cair e fui andando para Costa Dourada.

Itaúnas – Costa Dourada (BA)

Caminhar sozinho pode fazer milagres e desastres com o pensamento humano. Cada curva de areia no final de uma praia revelava em seguida uma enormidade de caminho pela frente até que uma hora você não espera mais chegar a lugar nenhum, então cachorros te perseguem no meio do nada e você acha uma espécie de gruta de areia (com forte risco de desmoronamento) onde brota uma água potável (?) refrescante. Você deita uma mochila pesando um pouco mais de 20kg e pensa, pensa baixo porque se começar a falar com a cabeça quente de sol pode simplesmente se perder da raia. Mas finalmente chega o cansaço depois de ficar um bom tempo tentando tirar côcos e com ele um mau-humor que chega a ser existencial. Seus ombros dôem e as memórias que antes era agradáveis e cheias de luz, tornam-se torturantes. Você chega a desejar que elas sejam como marcas na areia que não duram mais que uma maré baixa. Essa caminhada de alguma forma mexeu comigo, antes se tivesse me deixado mais forte, mas parece que minha força, nesses últimos anos, se resume a aguentar mais porrada.
Costa Dourada é aquele lugar que muitos chamam de “mundo novo”. Além de uma linda praia não oferece nada. Você pode facilmente ficar acampado em qualquer lugar da cidade sem o menor problema. Além de alguns bares e umas pousadas não vi muita coisa. Parece que tem um pedaço maior que vem do acesso pela estrada, mas não deu para conhece-lo. É diferente você chegar numa cidade pela praia, você se sente meio desbravador. Aqui fiquei na pousada do Gilberto, o lugar é muito legal, mas ficou três dias sem luz.
Viajar o sul da Bahia no outono é um pouco nublado e com forte chance de chuva, pelo menos nessa minha temporada. Fiz uns alongamentos marinhos e curti umas caminhadinhas. Consegui uma carona para o porto de Mucuri… agora tenho uma infinidade de destinos pela minha frente.

Estrada

Costa Dourada estava com um azul nublado e no segundo dia sem luz na cidade consegui uma carona para o Porto da Tiririca (que leva para Mucuri). A carona foi numa pampa muito velha e toda sujeita a defeitos. O lugar que consegui no carro foi obviamente na carroceria e, é claro, choveu pra caramba. A estrada que pegamos é um caminho alternativo que não está no mapa e que corta uma infinidade de eucaliptos, uma infinidade mesmo, aproximadamente 40km de eucaliptos.
Olhando aquelas árvores magrelas enfileiradas durante muito tempo comecei a enxergar pessoas e escritórios, todos emparelhados caminhando e trabalhando, digitando sicronizados num ritmo tediante. Essa é a mesma visão que tive vendo plantações infinitas de café na serra do Caparaó. Como lugares que aparentemente não tem nada a ver com o ritmo de trabalho urbano estão em sintonia com os mesmos, abastecendo esse estilo de vida com cafézinhos e resmas de papéis. Nessa hora eu preferia carregar minha mochila pesada e caminhar durante 2 dias do que empurrar um carro velho e tomar chuva na cabeça, mas acho que se caminhasse com minha mochila molhada não ia chegar muito longe e talvez gastasse mais de 2 dias caminhando até a foz do Rio Mucuri.

Mucuri – Eunápolis

O rio Mucuri é bonito, tem um manguezal denso e algumas árvores e eucaliptos ao fundo, cheguei no porto da cidade de Mucuri cedo, me esgueirei por ruelas até chegar na saída da cidade, fiquei bastante tempo esperando uma carona. Um cara ofereceu uma carona cobrada, R$ 5,00 para me levar até o trevo na BR 101. Eu acho um absurdo esse tipo de carona e por isso recusei, mas quando uma segunda pessoa ofereceu o mesmo esquema, achei que não conseguiria outra coisa, peguei rapidamente a minha bolsa e acabei deixando uma garrafa de alumínio para trás. Esse meu esquecimento e esse tipo de carona/taxi acabou contribuindo para achar Mucuri um lugar desinteressante. No trevo consegui uma carona com um cara vindo de Serra e indo para Itamaraju, na cidade peguei um moto-taxi até a saída dela e fiquei esperando uma carona, almocei perto da onde eu tentava a carona, o pessoal do restaurante falou que era difícil pegar carona ali, tentei mais um tempo, sem resultado. Quando um ônibus para-para passou, embarquei para Eunápolis.

Eunápolis

Julio me recebeu na rodoviária no belo carro da empresa em que ele estava trabalhando. Fizemos uma pequena tour por Eunápolis e logo vi uma cidade esquisita diante de meus olhos. Foi a maior cidade que eu vi depois de Vitória, mas não é vertical e por isso parece um pouco menor do que realmente é. A falta de prédios e o excesso de carros (muitos deles de luxo) me fazia buscar um outro padrão de cidade. Depois desse primeiro contato com a cidade, tomei um bom banho peguei minha última muda de roupa fomos para um bar, precisava de um porre para massagear os músculos e o cérebro do dia cansativo de caronas, ônibus e estradas…
Fomos comer uma batata recheada e depois um monte de cervejas. A noite foi longa e eu estava realmente cansado. Só o alcool para me manter meio zumbi nessas horas. Ainda não sabia quantos dias ficaria nessa cidade, mas Julio logo me disse que precisava viajar para Itabuna para visitar sua namorada, me ofereceu carona, mas eu precisava visitar meus tios em Porto Seguro e não podia subir para Itabuna naquela hora, se fosse depois da visita a Porto, seria perfeito. Não deu para acompanha-lo na estrada. Fiquei mais dois dias na chuvosa Eunápolis esperando não sei o que. Domingo quando Julio voltou tomamos mais umas cervejas, o tempo realmente não ajudava muito.
Segunda fui no mercado municipal e joguei dominó com os coroas, ganhei as duas partidas que joguei e desconfiei que algum tipo de sorte me acompanharia nessa viagem.
Liguei para minha tia e agendei a visita, sabia que a casa dela era muito legal e esperava fazer de lá uma espécie de spa e botar a conversa em dia com meus padrinhos.

Porto Seguro

Fui cedo para Porto, uma carona do Julio até a rodoviária facilitou a coisa toda. Chegando lá tive que esperar cerca de uma hora vendo a Ana Maria braga, meus pensamentos estavam calmos. Os dias em Eunápolis relaxaram meus musculos e esvaziaram minha consciência – eu jurava nisso. Os ônibus inter-municipais na Bahia (que eu vi) são todos do tipo “parador”, lá chamados de “para-para” e estão sempre pegando alguém no trajeto. A estrada para Porto estava tranquila e o ônibus encheu bem, cheguei lá perto das 11h e minha tia Beth e Lucas vieram me receber na rodoviaria alguns minutos depois. Demos uma curta volta pela cidade e depois fomos para casa deles. Que casa! Nunca tive tanto conforto na minha vida! A madrinha, o padrinho e meu primo me proporcionaram dias que realmente pareciam um spa. Fiquei lá até a madrugada da sexta feira santa. As 4:30am me deram a última ajuda, uma carona até a balsa para Arraial D’ajuda.

Arraial D’ajuda

Cheguei muito cedo em Arraial, não eram nem 6h da manhã quando cheguei. Caminhei até a praia na busca de um suposto camping depois da barraca do “parracho”. Fui caminhando… caminhando… nada de camping. Quando penso que não, a praia acabou. Eu não tinha trazido água, estava apenas com uma laranja que peguei na tia, um pacote de biscoitos e um saco de amendoim faziam parte da minha bagagem alimentícia. Um café da manhã vendo o sol nascer no final na barra de arraial me fizeram decidir, ir caminhando pra Trancoso.

Trancoso

A caminhada para Trancoso foi a coisa mais sossegada que já vi na vida, são cerca de 9km pela praia. Na maré baixa a coisa toda fica um tapete. No primeiro rio tirei meus tênis e, nunca mais os coloquei. Isso fez com que antigas bolhas (de outros trechos) estourassem, mas nada que afetasse minha caminhada. Não lembro de ter encontrado alguém no caminho, logo que atravessei o último e mais complicado rio antes da cidade, um argentino com um aspecto irônico perguntou se eu era guia turistico de Trancoso. Falei que nem sabia onde era, vi que é uma espécie de senso comum não informar nada cidade. Quem é jovem e não esta “empregado” vira guia de turismo lá e, os moradores da cidade se ajudam não informando nada a ninguém.  Nada contra ser guia, mas sem uma formação a informalidade, fica parecendo oportunismo.
Observando e aprendendo sem perguntar achei uma trilha para subir um barranco e sair na frente do famoso quadrado de Trancoso, logo me cansei de perguntar e não ter resposta/direções. A praia é sempre uma paisagem nua e a adentrar em cidades ou matas é um exercício de desbravamento, você sai de um meio que é “revelado” para entrar num outro cheio de elementos e possibilidades. O dualismo areia e mar, vira uma trama de sugestões e convites, as vezes mais labirínticos, outras vezes mais meditativos, umas vezes mais encantadores, etc.
Procurava por algum acesso alternativo, as falésias pareciam indicar que existia a possibilidade, arrisquei uma ou duas subidas, quando finalmente vi uma escada de barro. Não fazia nem 15 minutos que estava em trancoso e já cheguei no mirante da cidade. Uma paisagem bonita com um mar que tende para o infinito diante dos meus olhos. A velha igreja estava um pouco a esquerda, o cansaço e a fome nublaram minha percepção, eu queria um lugar para encostar minhas coisa e tomar um banho.
Depois de todo trâmite, consegui uma pousada por R$ 20,00/dia. Passaria o feriado da semana santa mais dois dias. Fechar um pacote pode facilitar o preço da hospedagem, mas também podem te colocar numa furada.
Trancoso é um lugar muito bonito, mas é também tipicamente turístico. Nunca me adaptei bem em aceitar o papel de turista, mesmo eu sendo um turista agora.
Um tempo chuvoso somado a uma imensidão de lembranças que começaram a me visitar fizeram de mim um sujeito ainda mais introspectivo. Dormia cedo e não conversava muito, até o último dia eu acreditava que entraria mudo e sairia calado de Trancoso – exceto pelas conversas com os comerciantes, mas esse tipo de gente conversa até com satanás para vender – até que conversei com uma mina que vendia uns artesanatos. Ela foi muito simpática e me deu um monte de contatos na Chapada Diamantina (completando as informações que peguei com o geógrafo Vitor em Vitória).
Depois de conviver com lembranças um pouco distantes, desviar de uma infinidade de bostas de cachorro, conviver com a solidão e com o tempo nublado… o frio na barriga voltou novamente a me visitar, eu agora teria que fazer uma longa caminhada até Caraíva, eu sabia que dormiria no caminho, mas onde?

Rio dos Frades

Longas praias, topless, índios bêbados de bicicleta, um rio que estava mais cheio que o previsto, isso são coisas que só uma caminhada pela praia pode lhe proporcionar.
Contemplar o mar até que as ondas limpem seus pensamentos ou acender uma fogueira para fazer um rango faz bem a qualquer ser humano. Parece besteira, mas existe uma mística ao acender uma fogueira. Algo que faz a minha satisfação se assemelhar com a de um antepassado muito antigo. Se você quiser experimentar essa sensação, faça isso com alguma noção, porque incêndios as vezes começam dessa maneira. Uma outra maneira de você experimentar isso, pode ser através da literatura, Jack London tem alguns livros que mostram esses momentos, um conto em especial, com certeza.
Caminhei de Trancoso até o Rio dos Frades em três horas e pouco, fiz um rango na margem do rio e um índio meio cigano levou-me a outra margem. Curti uma preguiça no quintal da casa do simpático “Seu Pereira”, quando dois pescadores de Trancoso chegaram lá, armaram uma barraca e montaram um vasto kit de pesca. O lugar era muito agradável e logo pedi para acampar lá também. Nem tanto porque estava cansado, mas porque além de ser um lugar muito bonito me pouparia para a praia do espelho, Curuípe e quem sabe Caraíva. Os pescadores fizeram um cozido roots que salvou a janta. Eles eram pessoas simples, um mais velho com espírito de “professor da vida”, sempre pedagógico com seu companheiro enquanto desenvolvia suas tarefas me ofereceu a janta, conversamos um pouco e formos dormir.
O clima à noite em Rio dos Frades não é nada religioso, a região não tem luz e parece com aquilo que chamam de zona de instabilidade. Vai ver era paranóia minha… mas depois que o filho de Seu Pereira “limpou” (deu um tiro) o cano de uma carabina bem na minha frente, fiquei ressabiado. Não sabia se aquilo era uma demonstração de medo ou de poder de fogo, mas em qualquer opção eu levaria a pior se sobrasse para mim.
Acordei no outro dia bem cedo, o clima estava mais tranquilo. Seu Pereira ofereceu um café fresquinho, aceitei, na sequência arrumei minhas coisas e fui para Praia do Espelho.

Praia do Espelho – Caraíva

Acordei cedo e pendurei as coisas que molharam com a chuva na madrugada. Não sei se acordei com o barulho da chuva ou com o calor que começava a agitar a barraca, mesmo achando que fiz a escolha certa trazendo a mais velha, menor e mais leve, as vezes sua costura “cansada” não aguenta o tranco da chuva, isso faz das noites chuvosas um exercício de paciência. Nessa noite tudo isso foi irrelevante, estava cansado o suficiente para ignorar a consciência. Havia amanhecido e Seu Pereira ainda não sabia quem eu era, era nítido que havia deixado ele um pouco inquieto, me apresentei bem cedinho para ele que, gentilmente, me ofereceu café. Tudo lá é muito simples, suas duas filhinhas são encantadoras e receptivas, sua esposa distante, mas educada e ele embora desconfiado soube me tratar bem.
Não demorei muito para juntar minhas coisas e pegar a praia, a idéia era chegar na Praia do Espelho perto do meio dia. Nenhuma consulta no Google Earth dessa vez.
Caminhada longa, o maior trecho depois de itaunas – costa dourada. O tempo era medido através das baias que eu atravessava, cruzei várias praias de camburí, umas 5 ou 6 no total. Cheguei na praia de espelho indo de encontro com uma multidão de turistas “de pacote”. O estilo era selvagem, largado e meio índio. Encontrei várias pessoas que estavam em Trancoso, mas isso não fez com que nos comunicássemos. Achei um PF barato, depois de descansar e pegar uma praiana encarei a segunda parte da caminhada.
Esse trecho (espelho-caraíva) é o mais rico em minas d’água, em cada baia você encontra uma bica, sejam as perenes ou as constantes. Quando não aguentava mais o rio caraíva se revelou para mim. Jurava que Caraíva era a ponta de Corumbau, se fosse dormiria em qualquer lugar na praia, mas Caraíva estava uns 6km antes de Corumbau e consegui chegar la aos trancos e barrancos.

Caraíva

5 noites e 6 dias em Caraíva fazem você se desligar um pouco do resto do mundo, meu celular não funcionava e a internet lá custava R$9,00/hora, ainda assim gastei alguns bons reais alimentando meu vício.
Em Caraíva, ao contrario de Trancoso, foi muito mais fácil “fazer amizades”. A comunidade era basicamente pesqueira e já havia aprendido um bocado de coisas sobre os pescadores em Regência, sem contar que a pesca é parecida com a de Regência porque os peixes são aqueles que vivem no encontro do rio com mar, por causa das chuvas o rio estava com bastante volume d’agua fazendo com que carregasse um monte de matéria orgânica que estava parada em suas margens, um cheiro de fezes de búfalo ficou no ar, nos dois primeiros dias.
Em Caraíva fiz meu primeiro mês de viagem dançando forró no famoso “forró do pelé” (pelo menos era mencionado numa música), joguei bola com um bando de insanos – com direito a um gol meu e uma defesa de penalti quando estava no gol, conheci índios gente fina e outros pilantrox, fiz um 2×0 no xadrez num Brasil vs. Argentina no restaurante/bar/pousada Lagoa, fiquei acampado por dias com minha mochila e roupas completamente sujas e peguei uma carona para voltar para Arraial com uma carioca muito psico no volante, a coroa corria alucinadamente na estrada de terra e uma hora quase saiu da pista caindo no atoleiro, para tirar a porra do carro sujei minha última roupa limpa, tinha guardado ela para chegar apresentável na casa dos meus tios em porto seguro.

Porto Seguro – reloaded

Dessa vez na casa dos meus tios em porto seguro só tinha meu tio Áureo presente, tia Beth e Lucas estavam visitando Vitória. Meu tio estava no meio de um grande processo de manutenção na empresa em que ele trabalha. Era um procedimento chamado de “parada” onde era feito todo um preventivo das máquinas e revisão de outras quem não podiam parar, sem que interrompesse todo processo da fábrica. Meu tio sempre chegava tarde e cansado nesses dias e geralmente tomávamos um vinho e conversavamos até ele pegar no sono. Em Porto fiz mais uma sessão bruta de cinema, assistindo um monte de filmes na sky, eram tantos filmes que no final você não sabe identificar muito o que você viu ou deixou de ver, mas um que vale ser mencionado é o brasileiro Estômago, me fez pensar bastante sobre o sistema carcerário e na gastronomia, me fazendo criar uma teoria sobre as greves de fome.

Eunápolis parte 2

Cheguei na casa de Júlio pela segunda vez e, agora ele já estava morando sozinho, o Marcelo que trabalhava com ele encerrou o contrato com a empresa onde trabalhava. Era véspera de algum feriado e Júlio estava planejando ir para Itacaré com a namorada, mesmo conhecendo Itacaré resolvi aproveitar a carona e curtir mais um pouco de praia.

Itacaré

Itacaré é um enorme complexo de praias lindas, mulheres lindas, ondas, gringos e dreadlocks. Uma energia intensa controla aquele lugar, deixando todos muito excitados. A capoeira que conhecia como um “jogo-dança-diversão” lá, é uma adrenalina brutal a 200 km/h, onde qualquer vacilo é tchau e benção.

Nos primeiros dias fiquei hospedado no mesmo albergue (pharol) que fiquei na época da minha primeira visita, achei que seria legal ficar lá e cozinhar meu rango, mas os gringos dominavam a cozinha e, não estava com saco para tirar meu inglês das profundezas oceânicas onde ele estava muito bem localizado.
No dormitório além de mim, tinha um israelense brucutu e, um dia depois, um alemão surfista picareta. Isso foi o suficiente para me mudar, Julio e Gabi voltariam no domingo e eu pensava em ir andando para Barra Grande.

Achei uma pousada barata e fiquei mais alguns dias, nesse tempo ficava visitando as praias mais próximas todos os dias. O tempo estava muito bom e a cidade cheia, minha paciência é que não era das melhores. Um dia caminhando cai de uma árvore morta e torci ou quebrei meu pé, de tal forma que vi a sola dele estando em pé. Tentei engessar, tirar raio-x e tudo mais, mas o sistema público de saúde já é precário, no interior da Bahia é tenso. Peguei carona numa ambulância para Ilhéus (depois soube que a mina que estava comigo no veículo tinha suspeita de estar com meningite, ou seja por causa de um pé fraturado eu poderia ter morrido! Em Ilhéus o médico não estava no plantão.
Cansado de Itacaré e com o pé quebrado peguei um ônibus para Ubaitaba.

Itacaré – Chapada Diamantina

Com o pé quebrado saí de Itacaré. Não voltei por Ilhéus, primeiro porque eu desceria e me afastaria do meu destino, segundo porque já havia “conhecido” a cidade um dia antes da minha partida, quando fui tentar tirar um raio-x do meu pé quebrado, mas o médico não estava fazendo plantão.

Que a classe médica é cheia de profissionais trabalhadores, não resta dúvida, mas uma parcela significativa se aproveita do caos da saúde pública para receber sem trabalhar. Gostaria de ver um sistema de ponto eletrônico para monitorar esses vagabundos, mas o governo Brasileiro tem um medo absurdo da classe médica, deles fazerem greve. Tudo culpa do foco. Preferem dar ênfase no doente ao invés da prevenção, os profissionais que podem ajudar na prevenção não precisam da capacitação médica, podem ser profissionais de diversas áreas ou mesmo técnicos. Sem contar que é mais barato.
Devaneios a parte, fui por uma estrada de terra que passa por Tamboquinhas

Não desci na cidade, mas mesmo de passagem fiquei com uma boa impressão do lugar. Às margens do rio de contas (caso eu não esteja enganado), o vilarejo parece que teve um auge na época das fazendas de cacau. Depois de Tamboquinhas fui para Ubaitaba.

A cidade fica na BR 101, o pior lugar para pegar carona na Terra. Na boa, é muito difícil pegar carona nessa BR. Fiquei de manhã até anoitecer tentando pegar carona perto de um quebra-molas, fiquei tanto tempo que a mulher da pousada que ficava perto da onde eu estava passou por mim umas 4 vezes. Quando escureceu ela me ofereceu um lugar pra ficar. Eu tinha dinheiro, mas tem horas que você se propõe gastar o mínimo possível, com o pé quebrado/torcido (não sei direito porque não tirei raio-x, mas ele dói até hoje) meu humor foi para as cucuias, mas o gesto dessa senhora me animou. Fez eu relevar o cachorro dela ter mijado em mim.
Dormi numa cama que ficava numa espécie de corredor-quarto, o medo de levarem minha mochila fez o sono ser o mais leve possível. O local era uma pousada, mas servia mais como motel e eu fiquei bolado.
No outro dia de manhã fui bem cedo para o mesmo quebra-molas, com a mesma placa escrita JEQUIÉ. Com algumas horas parou um carro falando que ia para uma cidade perto de Jequié, não me lembro o nome da cidade agora.
O cara tinha voltado dos EUA e estava indo visitar os pais, acho que morava no Rio. Contou algumas histórias da América do Norte, de uma perda total de um carro que o pai dele tinha dado para ele, dessa coisa de pegar carona, etc. ele dirigia bem e a velocidade era boa. Me deixou na rodovia estadual na saída da cidade, disse que era melhor para eu pegar carona, nos despedimos e ele voltou por onde viemos. Foi um cara muito gentil e uma das poucas caronas que consegui na BR 101.
Peguei outra carona, com um cara mais velho e muito mais lento no volante, me deixou em Jequié, mas me lembro muito pouco dele e do caminho.
Em Jequié almocei em um self-service, acessei a internet e peguei um moto-táxi para o trevo da cidade na BR 116.
Novo trevo, nova placa.
Não sabia direito por onde era o melhor caminho, olhei o mapa e escolhi o caminho mais curto. A cidade seria “Milagres”, com esse nome na placa conseguiria uma carona fácil, pensei. Dito e feito. Depois uns 30 minutos um motorista de caminhão bem novo, 1 ou 2 anos mais novo do que eu na época, abriu a porta para me levar para Milagres. Amei a BR 116, pelo menos a parte baiana da mesma (no Paraná em outra viagem eu havia odiado essa BR).
Essa hora é um momento apreensivo tanto para o motorista que cede carona, como para o caroneiro. Não tem como evitar alguns pensamentos mais sinistros. Ele fala do radar de monitoramento, eu falo que sou de Vitória. Ele fala que é do Rio Grande do Sul. Pergunto se é Inter, diz que é Grêmio. Isso me preocupa a princípio, mas o cara é legal.

Conversamos sobre esse lance de pegar e dar carona, a estrada, o caminhão, os carros, os ônibus. Estou pela primeira vez dentro de um caminhão viajando e fico impressionado com o conforto e tecnologia. Não lembro o que ele carregava, mas a carga era pesada, o caminhão, apesar de forte e novo, não desenvolvia muito. Me falou das cidades daquela estrada, lembro que uma tinha o nome da quilometragem. Acho que ele ia para Fortaleza ou Recife.
Chegando em Milagres não desci na cidade, falei para ele que tinha um trevo um pouco depois da saída. Pedi para ficar nele.
Era um lugar no meio do nada e o trevo não era bem um trevo. Era uma entrada para uma estrada de terra.
Eu estava no meio do nada com um pé podre, haviam umas pessoas no mesmo trevo, mas não eram de falar e ficaram intrigadas com minha tentativa de carona. O bar estava fechado o que me levou a crer que o lugar não era nada movimentado. Alguns carros passaram, sem sucesso, mas alguns minutos depois um ônibus desses bem velhinhos parou na encruzilhada e carregou todas as almas que estavam naquele lugar esquecido por Deus.
A paisagem já era totalmente diferente de Tamboquinhas, comecei a entrar no que acredito ser uma parte do sertão da Bahia. Os cactos e a paisagem ampla com alguns platôs era alucinante. As fazendas imensas tinham cercas que muitas vezes cercavam o nada. Eu estava tendo um ótimo dia e a impressão que ia me dar mal naquele trevo ficou totalmente para trás, estava indo par Iaçu e tudo ia dar certo.
Chegando em Iaçu um taxista disse que não havia mais ônibus para Itaberaba e me ofereceu o serviço de transporte para essa cidade por uns 60 ou 90 reais, disse para ele que estava vindo de carona de Ubaitaba e que estava fora da minha realidade pagar isso para ir para qualquer da Terra.
Nessas horas não adianta muito você ter um mapa, por mais que você saiba onde você está, muitas vezes esse conhecimento é apenas uma teoria. Eu estava em Iaçu querendo ir para a Chapada Diamantina, nunca estive tão perto e ao mesmo tempo parecia terrivelmente longe.
O valor do táxi esticava a curta distância.
Conforme ele viu que eu não pagaria disse que um ônibus iria passar em pouco tempo. Aliviado esperei pela salvação do busão que deixou Iaçu para trás.
Itaberaba é uma cidade que eu lembro muito pouco. É grande, mas sem uma arquitetura muito memorável. Cheguei na rodoviária e acho que nem saí de lá. Lembro que tinha uma fábrica de tênis de marca (adidas?), comprei uma passagem para Lençóis que sairia no meio da noite. Não chegaria à cidade a tempo de procurar um camping e bastante cansado, mas qualquer lugar estaria perfeito. Eu estava chegando à chapada.

Lençóis

Arquitetura antiga, ruas calçadas com pedras multiformes, muitos rios, muitos gringos e várias cachoeiras. Próximo da cidade existem algumas trilhas de fácil acesso e bem marcadas, Riberão do meio e umas cachoeiras na parte mais alta da cidade. A cachoeira do Sossego fica um pouco mais longe, mas é uma trilha que dá para fazer sem guia (embora seja um pouco mais complicada para achar o caminho) e voltar para Lençóis no mesmo dia. Cheguei em Lençóis uma quarta ou quinta feira, o ortopedista só fazia plantão no sábado, meu pé parecia uma bola de boliche e para aliviar a dor tomei duas vacinas, uma anti-inflamatória e outra analgésica. Esse tipo de paliativo era a única solução que conseguia nos postos de saúde.

Minha primeira noite foi numa pousada, no outro dia achei um camping bem cuidado cuja diária era R$ 15,00, fiquei nele por uns três dias. Nessa estadia passei muito mal com diarréia porque tomei água de uma suposta mina potável que achei fazendo uma trilha. As águas nessa região tem uma cor escura que torna cada mergulho de cabeça um salto no desconhecido, quando vi uma córrego de águas cristalinas resolvi chegar o mais próximo da sua origem, me desviei por vários metros intenção, embaixo de uma pedra enorme colhi um pouco d’água para beber, o resultado eu senti à noite.

Melhorada dessa situação intestinal busquei abrigo na casa de um contato no CouchSurfing, o combinado era que eu cozinharia e lavaria as louças, em troca eu ganharia hospedagem por uns dias. A Renata era mineira e trabalhava numa empresa de Ecoturismo, nos últimos dias fiz um giro com eles, visitando o tradicional Morro do Pai Inácio, Fazenda Pratinha, lagoa azul e uma gruta que não lembro o nome. Lençóis é a cidade mais famosa e dela você pode fazer diversas trilhas mais longas, mas ficar restrito a ela e suas proximidades não me deu a impressão de ter conhecido realmente a chapada Diamantina, mas nessas trilhas com meu pé esquerdo machucado acabei expondo meu joelho direito a muitos trancos e para não ficar completamente entrevado resolvi voltar para casa.

Retorno

Eu queria voltar de carona, havia comprado uma mochila nova e não queria gastar mais dinheiro. Fui andando até a saída da cidade, alguns minutos depois consegui uma carona ate uma cidade de Itaberaba, ela ficava nas margens de uma rodovia estadual baiana que liga Brasília a Feira de Santana (BA 242), um trecho muito propício para caronas. Em Itaberaba consegui uma carona para Feira de Santana, cheguei lá bem a noite, num acesso escuro e chuvoso, no posto sondei alguma carona para o sul, mas estavam todos se preparando para dormir por lá mesmo, consegui um moto-taxi com o capacete fedorento e fui para a rodoviária de Feira, lá tive a brilhante ideia de pegar sempre o ônibus do último horário para a cidade mais próxima ao sul, sentido Vitória. Eu ficaria o dia inteiro tentando uma carona na BR 101 e caso não conseguisse, pegaria um ônibus para uma cidade próxima e ficaria uma ou duas horas dormindo nele e o restante na rodoviária, para tentar carona no outro dia. Essa estratégia não funcionou muito e, um trecho que levaria algumas horas para ser feito me custou três noites e três dias para completar, meu pé estava doendo terrivelmente e não via a hora de chegar na minha casa.

Nesse trecho eu conclui que o caminho mais repetido ainda é o retorno, sejam nas viagens ou nas minhas ideias. Cheguei em casa e tive uma surpresa desagradável com meu inquilino. A viagem teve um desfecho bem aquém do esperado, mas o final é só um pedaço do todo e foram os diversos encontros, momentos sozinhos, passos nessa longa estrada chamada praia que temos de norte a sul em nosso litoral que fizeram essa viagem ser inesquecível para mim.

Leonardo Prata

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