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Um breve panorama sobre a história da internet

Quando uma rede sem fios for perfeitamente aplicada, a Terra será convertida em um grande cérebro – o qual de fato já é -, e todas as coisas serão partículas de um todo real e rítmico. Nós poderemos nos comunicar instantaneamente, independente da distância. Não apenas isso, mas através da televisão e do telefone nós poderemos ver e ouvir um ao outro tão perfeitamente como se estivéssemos cara a cara, apesar da distância de milhares de quilômetros; e os instrumentos que tornarão isso possível serão surpreendentementes simples, comparados aos nossos telefones de hoje. O homem poderá carregá-lo no bolso de seu colete.

Nikola Tesla em entrevista para a revista Colliers, em 1926

Um Breve Panorama Sobre a História da Internet

A transferência de dados é a essência da Internet. Seja entre dois pontos, ou mesmo entre vários, a comunicação e a distribuição de dados variados move a rede mundial. Entretanto, a ideia de compartilhamento de informações remonta à introdução das primeiras tecnologias de comunicação, sendo possível perceber que há muito o homem já se sentia compelido a se conectar com seus semelhantes para propagar e absorver ideias.

O telégrafo do século XIX já permitia a troca de informações entre dois lugares distantes, bem como fez o rádio e o telefone. Porém, devido ao invento do transístor e o desenvolvimento do micro chip na década de 50, hoje temos acesso a máquinas pequenas, portáteis e muito potentes, sendo capazes de realizar diversas tarefas – não somente devido ao acesso à Internet, mas também pela quantidade exorbitante de aplicativos desenvolvidos para essas novas tecnologias.

Hoje a Internet é parte integral da vida de mais de 78 milhões de brasileros, e mais de 1.5 bilhões de pessoas em todo o mundo. Isso significa que em média uma a cada cinco pessoas se conectam à world wide web, enviam e-mails, se atualizam rapidamente sobre as notícias do mundo todo, realizam chamadas em áudio ou videoconferências, e compartilham textos, imagens, áudios e vídeos praticamente num piscar de olhos.

Todos esses fatos vão ao encontro da visão inicial dos criadores dessa ampla rede planetária de comunicação que chamamos Internet, bem como os postulados visionários de Nikola Tesla e Marshal McLuhan.

Marshal McLuhan cunhou o termo ‘aldeia global’ em 1962 para descrever um mundo no qual seria possível se informar em tempo real sobre acontecimentos realizados há milhares de quilômetros de distância, assim como é possível ser informado rapidamente sobre um fato quando se vive em uma pequena aldeia, ou vila. De acordo com o conceito de McLuhan, atualmente já vivemos nessa ‘aldeia global’. Entretanto, há 55 anos, as facilidades que a Internet nos proporciona atualmente eram apenas uma vaga ideia.

1940 – 1950

Desde o lançamento do primeiro equipamento eletrônico do mundo a ser chamado de computador, o ENIAC, em 15 de agosto de 1946, até o ano de 1957, o ‘Processamento em Lote’ (Batch Processing) era o único existente, limitando os computadores a trabalharem em apenas uma tarefa por vez.

Nessa época eles eram enormes, ocupavam prédios inteiros e precisavam estar em salas devidamente climatizadas. Dessa forma, os desenvolvedores passaram a não ter acesso direto às máquinas e uma conexão remota precisou ser estabelecida.

Não demorou para que tal conexão fosse instalada, permitindo aos desenvolvedores um trabalho direto nos computadores, poupando tempo e “bugs” que surgiam pelo uso do sistema de cartões perfurados. Esse grande passo fez surgir na informática o conceito de ‘Tempo compartilhado’ (Time-Sharing), no qual o poder de processamento de um computador matriz seria compartilhado com vários outros.

Em meio a Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética impulsionavam a explosão tecnológica que moldaria o mundo. Em 4 de outubro de 1957, a União Soviética lançou em órbita o primeiro satélite não tripulado, o Sputnik 1. Este protagonismo espacial da URSS fez com que os EUA acelerassem seu desenvolvimento tecnológico. E eles o fizeram, como todo bom competidor.

Em fevereiro de 1958, os EUA fundaram a Agência de Pesquisa e Projetos de Defesa Avançados, a DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency). Essa agência tinha um propósito maior para o conhecimento e foi além da transmissão do saber entre as pessoas: seria criada uma rede de computadores em larga escala para agilizar as transferências de dados.

1960

Dois anos depois, em 1960, a RAND Corporation, a Universidade da Califórnia (UCLA) e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) anunciaram o conceito da ‘Manobra de Pacotes’ (Packet Switching). Esse conceito evitaria o congestionamento das redes, dividindo os arquivos em pequenos pacotes, que seriam reunidos novamente no receptor.

Essa nova maneira de enviar dados permitiu que a DARPA desenvolvesse a ARPAnet, uma rede de informações focada para entidades do governo, e outras instituições educacionais, ao exemplo das universidades.

Em 1962, quando os EUA descobriram que Cuba possuía mísseis soviéticos de longo e médio alcance, o medo de um conflito atômico veio à tona, e com isso surgiu a necessidade de uma rede distribuída e descentralizada a fim de evitar a desagregação da informação durante um possível ataque.

Sendo asim, a ARPAnet é fundada em 1966, de acordo com os conceitos de descentralização da informação. Em 1968, essa nova rede possuía quatro computadores interligados, sendo estes computadores de instituições governamentais, bem como de instituições públicas – no entanto, o acesso ainda era restrito ao público.

1970

Em 1970 surge um novo conceito de rede científica pelo Laboratório Nacional de Física da Inglaterra (NPLNational Physical Laboratory).

Em 1972, a ARPAnet cresceu para 30 computadores interligados, ou seja, multiplicou-se oito vezes em apenas quatro anos. Nesse mesmo ano aconteceu o primeiro envio de e-mail, que, na verdade, se tratava de uma mensagem eletrônica ainda primitiva em comparação à comunicação via e-mail que estabelecemos hoje.

Inicialmente, a ARPAnet não foi desenvolvida para enviar e-mails, mas seus operadores perceberam que existia essa necessidade de comunicação entre os pontos interligados, e implementaram essa mudança. Assim, foi criado o conceito de ‘Lista de Mensagens’ (Mailing List), tornando possível enviar uma mesma mensagem para diversos destinatários.

Para essas primeiras conexões entre os computadores, o ‘Grupo de Trabalho em Rede’ (Network Working Group) desenvolveu o ‘Programa de Controle de Rede’, o NCP (Network Control Protocol).

À medida em que os estudos sobre as redes fervilhavam nos EUA e na Inglaterra, a França também desenvolveu a sua rede, a CYCLADES, em 1973, um feito de extrema importância para a história da Internet. Devido ao fato dessa rede possuir um orçamento muito menor que a ARPAnet – e menos computadores interligados -, o seu foco foi a comunicação dela com as outras redes existentes. Foi assim que surgiu o termo ‘inter-net’.

A CYCLADES foi uma rede de pesquisa desenvolvida para explorar alternativas diferentes do formato da ARPAnet. Ela influenciou muito o formato inicial da Internet, pois foi a primeira a tornar os próprios servidores responsáveis pela distribuição de dados, utilizando mecanismos de protocolos end-to-end – utilizados posteriormente no padrão TCP/IP.

Essa rede foi patrocinada pelo governo francês através do Institut de Recherche d’Informatique et d’Automatique (IRIA), o Laboratório Nacional de Pesquisas para Ciências da Computação na França (INRIA). Vários produtores de computadores, institutos de pesquisa e universidades contribuíram com seu desenvolvimento.

Em 1974, o Protocolo de Controle de Transmissão (TCP) é inventado, promovendo a conversa entre diferentes sistemas. Essa invenção foi muito importante pois padronizou a comunicação entre vários computadores, sendo a base do padrão TCP/IP que utilizamos atualmente. Dessa forma, o antigo NCP foi substituído pelo TCP, e uma característica específica desse novo sistema é a verificação da transferência de arquivos. Alguns anos depois, em 1977, o número de usuários da rede pública de TCP superou os da ARPAnet.

1980

O ano de 1980 foi marcado por diversos acontecimentos inesperados para o universo computacional. O primeiro registro de vírus data desse período, e surgiu na ARPAnet. Em 1982, a ARPAnet adotou o TCP/IP, tornando-se a primeira organização governamental a utilizar o protocolo que é usado atualmente.

Em 1984, o Sistema de Nome de Domínios (DNS) foi introduzido, e nesse mesmo ano o número de servidores online passaram de 1.000. Três anos depois, os servidores haviam se multiplicado por 10, contabilizando mais de 10.000 servidores online.

O sistema TCP da DARPA conectava os computadores através de Gateways, e a Organização Internacional para Padronização (ISO)  projetou o modelo de referência OSI (Open System Interconnection) afim de evitar incompatibilidade nos sistemas das redes.

A inovação do OSI foi padronizar a rede a partir de suas extremidades. Finalmente, o TCP assimilou as preferências do modelo OSI, abrindo caminho para o protocolo TCP/IP – um padrão que garante a compatibilidade entre as redes, uma características fundamental para a criação e funcionamento pleno da Internet.

Sendo assim, a Internet passou a ser um sistema global de computadores interconectados em redes que utilizam o padrão Internet Protocol Suite (TCP/IP) para servir bilhões de usuários ao redor do mundo.

1990

Da década de 1990 em diante, a Internet começou a crescer de maneira exponencial e passou a existir no inconsciente coletivo de todo o mundo. Em 28 de fevereiro de 1990, a ARPAnet cessou suas atividades, e nesse mesmo ano o primeiro serviço de conexão dial-up tornou-se disponível, popularizando a novidade que tomaria de assalto a última década do século XX.

Em 1991, Tim Berners-Lee cria o primeiro navegador, o World Wide Web. Ele também foi responsável pela criação do primeiro código HTML, e assim fez nascer a Internet como a conhecemos. Sem essas adições, a Internet seria apenas sistemas remotos interligados.

Não demorou para que começassem a surgir os primeiros sites oficiais. Em 1993 ficaram online os sites do Banco Mundial, das Nações Unidas e da Casa Branca. Em 1994 foi a vez dos sites comerciais tomarem seu lugar na rede. O primeiro foi o Pizza Hut, e no mesmo ano surgiu o site de buscas Yahoo. A partir da criação do Yahoo, o compartilhamento da informação alavancou exponencialmente a forma das pessoas pesquisarem na rede.

Em 1996 aconteceu a guerra de browsers entre o Netscape e o Internet Explorer, da Microsoft, fato que sinalizou uma nova era no desenvolvimento de softwares. Nesse mesmo ano foi fundado o sistema de e-mail grátis Hotmail, o onipotente Google, e a empresa Macromedia introduziu o Flash na rede, promovendo aos usuários online experiências complexas e ricas em gráficos animados.

À medida em que se aproximava o novo milênio, em 1999, a Internet já contabilizava 6.5 milhões de sites online. É nesse contexto que surge o Napster e o sistema de compartilhamento P2P (peer-to-peer), virando de cabeça pra baixo a indústria fonográfica, e dando início a enxurrada – ou mega tsunami – de compartilhamentos de arquivos de música entre lares de todos os continentes.

2000

A primeira década do novo milênio foi marcada pela criação da primeira enciclopédia livre e online, a Wikipedia, lançada em 2001. Em 2003, Mark Zuckerberg lança o Facemash, precessor do Facebook, que por sua vez começaria a atuar em 2004, conectando as pessoas de forma muito eficiente, se tornando a mídia social de maior sucesso até os dias atuais.

O campo do audiovisual também sofreu uma revolução com o lançamento do portal de compartilhamento de vídeos YouTube, em 2005. Nesse mesmo ano contabilizava-se 68.000 redes wi-fi online em todo o mundo, ao mesmo tempo em que pela primeira vez foi possível observar a Terra de uma perspectiva espacial, através do Google Earth.

Em 2006, o navegador Mozzila Firefox foi lançando, ditando um novo padrão para navegadores devido a excelência de seu design e recursos. Nesse mesmo ano o micro blog Twitter também ficou disponível no universo online, e o limite de 140 caracteres passou a ser um grande desafio para aqueles que tem necessidade de propagar ideias mais longas. O desafio foi aceito, e hoje a rede social é utilizada no mundo todo.

Em 2007, a Apple lança o iPhone, moldando um novo padrão de qualidade para telefones em todo o mundo, pois essa nova tecnologia pode ser considerada um micro computador que realiza chamadas, ao exemplo dos incontáveis aplicativos disponíveis pra essa plataforma digital.

2012

Através desse breve panorama sobre a história da Internet, percebe-se que a rede mundial foi concebida através da soma das abordagens científica, militar e comercial. A história dos computadores – na qual pode ser conferida neste breve panorama -, e o desenvolvimento da Internet são entrelaçados, e a história de ambos continua a ser escrita a cada dia, estando em contínua expansão.

Qual será o futuro da rede mundial de computadores, niguém sabe. Talvez a comunicação através de hologramas seja a novidade dessa década. As teorias científicas-apocalípticas dizem que uma tempestade magnética causada pelo Sol pode vir a queimar os satélites de comunicação e os aparelhos eletrônicos, nos empurrando de volta à uma nova Idade da Pedra. Entretanto, uma perspectiva otimista é considerar que no futuro a banda larga será grátis para toda a população, democratizando de vez o acesso ao universo digital da rede mundial de computadores.

Ao mesmo tempo em que esses devaneios emergem, ações governamentais estudam sobre como dar continuidade às leis que combatem a pirataria online – divulgadas e aplicadas em janeiro deste ano -, ao exemplo da ação de banimento acometida ao site Megaupload. Essa recente manifestação policial em meio virtual aponta um caminho nebuloso para a Internet, caso o SOPA e o PIPA sejam levados adiante no Congresso Americano.

Em contrapartida, muitos usuários da Internet mostraram que, mais do que nunca, possuem voz e união em toda ‘aldeia global’ para organizarem movimentos online contrários ao SOPA e ao PIPA. O próprio invetor da World Wide Web, Tim Berners-Lee, se pronunciou afirmando que essas leis violam os direitos humanos, e incentivou o povo americano a realizar protestos contra a implementacão dessas leis. Outra figura famosa do meio virtual a dar sua opinião foi Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, afirmando que essas são leis mal pensadas.

Com ou sem lei, a Internet contribui para a organização de manifestações nas ruas de todo o mundo. Esse é o caso da Primavera Árabe iniciada em 2010, do movimento Ocuppy de 2011 – iniciado em Wall Street e espalhado por todo território americano -, e também das diversas manifestações realizadas nas ruas do Brasil defendendo interesses minoritários.

Dessa forma, fica claro que a Internet ainda será objeto de muita discussão nessa nova década que se inicia. Como já postulou Marshal McLuhan, “o meio é a mensagem”.

 

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