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Entrevista com Leonardo Merçon, idealizador do projeto Últimos Refúgios

O fotógrafo e designer gráfico Leonardo ‘Léo’ Merçon, durante o curso de Desenho Industrial na UFES, no ano de 2006, idealizou e conseguiu publicar o livro Últimos Refúgios: Parque Estadual Paulo César Vinha, com fotografias e informações sobre a natureza presente nesta área de preservação ambiental.

Hoje no ano de 2011 ele é o coordenador geral do projeto Últimos Refúgios que está lançando um livro e um documentário intitulado Últimos Refúgios: Parque Estadual de Itaúnas no evento de comemoração de 20 anos do Parque Estadual de Itaúnas que acontece do dia 11 ao 13, na Sede do Parque, no município de Conceição da Barra. Daremos uma pincelada sobre a trajetória que originou o projeto Últimos Refúgios, e  em seguida vocês poderão conferir uma entrevista exclusiva com Léo Merçon.

O primeiro livro produzido de forma independente em 2006, o foco foi a fauna e flora do Parque Estadual Paulo César Vinha, localizado entre as cidades de Vila Velha e Guarapari. A partir da intensa vivência e experiência realizada por Leonardo surgiu a vontade e o sentimento de dar continuidade a produção de livros fotográficos e registros audiovisuais que abordassem a realidade das reservas ambientais. Foi quando se deu a gênese do projeto Últimos Refúgios. Em 2008 Leonardo buscou e conseguiu viabilizar novos projetos através da Lei Rubem Braga, e em 2009 a equipe do Últimos Refúgios começou a produzir o livro fotográfico e documentário Parque Estadual de Itaúnas, e o documentário Toninho Mateiro, que tem como foco a figura do ex-caçador Antônio de Oliveira.

Em meados de 2009, com a produção do livro fotográfico de Itaúnas quase finalizada, Leonardo Merçon recebeu a notícia de ter sido um dos seis brasileiros daquele ano a serem selecionados para uma bolsa de pós-graduação na Alemanha pelo DAAD. Ele se mudou e por 2 anos estudou na Kunsthochschule für Medien Kőln (Universidade de Mídia e Artes de Colônia – Alemanha), onde realizou sua especialização em Fotografia e Design de Livros. Como não era possível perder essa oportunidade, após embarcar para a Alemanha, as ações do Últimos Refúgios continuaram sob a supervisão de Yuri Salvador, diretor do documentário Últimos Refúgios: Itaúnas, e durante os anos de 2010 e 2011 a produção do documentário resultou em um registro da questão socioambiental que perpassa o parque. Ao voltar da Alemanha, em 2011, Leonardo finalizou as fotografias para o livro em meio a muitas dificuldades encontradas por ele e toda equipe do projeto no processo de registro fotográfico e audiovisual.

Para saber mais acesse: site oficial do Últimos Refúgiossite oficial do Leonardo Merçon, e canal youtube do Últimos Refúgios.

TEASER: Documentário Últimos Refúgios: Itaúnas.

ENTREVISTA

Cientistas e pesquisadores emitem pareceres preocupantes sobre as condições do meio ambiente, que dizem um futuro próspero comprometido pelo modelo civilizatório atual. Embora essas advertências sobre mudança climática e esgotamento de recursos naturais já não sejam uma novidade nesse início de século, as políticas públicas e o interesse social ainda não contemplaram a dimensão ambiental com ações de preservação ou mecanismos de gestão consciente do ambiente natural, seja por via de grandes investimentos estratégicos, seja por meio de atitudes que revertam esse quadro preocupante.

Porém, nem todos estão atônitos a essa situação, existem iniciativas que contrariam o curso desse destino ameaçador. Iniciativas particulares, insistentes, que aos poucos ganham simpatizantes e colaboradores, que ampliam o conhecimento e a mensagem sobre o desafio mais evidente para a humanidade nesse momento: restaurar a saúde do planeta Terra. Um desses exemplos é protagonizado pelo fotógrafo e designer gráfico Leonardo Merçon, que durante o curso de Desenho Industrial na Universidade Federal do Espírito Santo, idealizou o projeto de um livro com fotografias e informações sobre a natureza presente no solo capixaba.

Segue uma entrevista exclusiva com o fotógrafo e designer gráfico Leonardo Merçon sobre a trajetória do projeto Últimos Refúgios, desde sua gênese até os planos e idéias para o futuro. O fotográfo, como sempre, foi muito sincero, pé no chão, e transpareceu ser um sonhador com muita garra e determinação para fazer seus sonhos se tornarem realidade!

O que te incentivou a criar o projeto da série Últimos Refúgios?
Em 2005, quando fiz a matéria de projeto de graduação na UFES, escolhi fazer um livro de fotografia, já que eu sempre tive o prazer de fotografar a natureza. Procurei um lugar mais próximo possível pra realizar o projeto. Então escolhi o Parque Estadual Paulo César Vinha, em Setiba-ES.

O Parque de Setiba é um lugar que eu sempre freqüentei durante a minha juventude para surfar com meus amigos. Por isso, eu pensava em uma maneira de contribuir com aquele recanto que me deu tantas memórias e emoções. Na época eu ia com um carro a gás, e gastava dez reais pra ir e pra voltar, passava por um caminho alternativo, uma estrada de chão, pra não precisar pagar o pedágio. Foi difícil, como todo começo, mas o sucesso do primeiro livro me incentivou a continuar trabalhando para elaborar novos livros e documentários com a mesma temática. Daí veio a idéia da série Últimos Refúgios (UR), que segundo minhas concepções, somaria as forças dos livros e dos documentários, na medida em que cada etapa do projeto é realizada.

De que forma o projeto UR foi viabilizado?

 Eu percebi que os projetos que não se comunicam acabam indo pra gaveta, portanto, tratei de conectar todos os projetos aos anteriores a fim de dar força para os projetos futuros. Com a ajuda de amigos próximos e colaboradores, o projeto ganhou a dinâmica que precisava para ser concluído com a qualidade que imaginei.

As pessoas me perguntam por que luto tanto para realizar esse projeto, mesmo sem ter recursos. E eu respondo: porque sou egoísta! Porque tive os melhores momentos da minha vida nessas áreas de preservação ambiental, e, eu, sou egoísta a ponto de querer mais momentos como esse. Quero que meus filhos e meus netos possam usufruir dos mesmos privilégios que eu tive. Foi desse egoísmo benéfico que surgiu o projeto pra tentar sensibilizar as pessoas mostrando que realmente existem vidas a serem preservadas nas nossas áreas protegidas. Por isso, tenho que fazer vários trabalhos como fotógrafo em festas de casamento ou qualquer tipo de evento para poder ter minha renda enquanto realizo esse projeto. Invisto a maioria do meu tempo no UR, mesmo não ganhando nada financeiramente.

Como surgiu a idéia para realizar o projeto UR no Parque Estadual de Itaúnas?

Itaúnas é mais um local que eu freqüentei com amigos. Desde muito novo eu fui umas vinte vezes como turista, porém, sem tomar conhecimento do parque. Então, quis encarar o desafio de fazer o projeto em Itaúnas. Foi um grande desafio, pois a região está muito degradada. Embora existam dunas, alagados e belas praias, a região é subaproveitada pelo turismo. É um lugar fantástico. Eu, que já fui para o Hawaii, posso afirmar que existem praias em Aracruz muito mais bonitas do que as de lá, onde turistas gastam milhões de dólares. A praia mais bonita que já vi fica em Aracruz, em frente a Reserva Augusto Ruschi. 

Quais foram os caminhos percorridos para a realização do projeto UR em Itaúnas?

A equipe, juntamente comigo, escreveu um projeto para o edital da Lei Rubem Braga, em 2008. A aprovação saiu em 2009, mas a verba que foi disponibilizada pelo edital correspondeu à metade do que estimamos. Depois de diversas reuniões com empresas, nós conseguimos trocar os bônus através da Lei. Entre as empresas que aceitaram o projeto estão: a Viação Grande Vitória, a Viação Tabuazeiro e o Banestes, que apoiaram o livro/documentário sobre o Parque de Itaúnas e também o documentário sobre o Toninho Mateiro, personagem ligado ao Parque Estadual Paulo César Vinha, em Setiba.

 O trabalho em Itaúnas começou em 2009, coincidindo com a conquista de uma bolsa de estudos na Alemanha, que rendeu uma pós-graduação. Fui um dos seis brasileiros selecionados pra essa bolsa, graças ao meu primeiro projeto em Setiba. Eu fui para lá no final de 2009, no entanto, eu não desisti do projeto. Um grande amigo, Yuri Salvador, continuou coordenando o projeto em meu lugar, passando todas as informações relevantes para mim pela internet. Depois de dois anos estudando, eu voltei com grande disposição, e, em quatro meses, finalizamos o projeto. A pedido da equipe do parque adiamos o lançamento até o momento da comemoração de 20 anos do parque de Itaúnas, que acontecerá nos dias 11, 12 e 13 de novembro. 

Quais foram as principais dificuldades para elaborar o livro e o documentário sobre Itaúnas?

 A maior dificuldade é apoio financeiro. Mesmo com o orçamento estourado, continuamos o trabalho necessário para elaboração de um projeto de qualidade. Por exemplo, a foto da capa do livro Itaúnas, corresponde a um trabalho custeado pela própria equipe do projeto, que foi em busca de um jacaré no ambiente natural. Foi muita sorte encontrá-lo.

A gente demora um ou dois anos pra finalizar um projeto como esses, mas temos condição de fazer em cinco meses, em caso de haver apoio financeiro. Isso porque pra realizar o documentário e o livro de forma objetiva, é necessário que a equipe se dedique integralmente ao projeto. Na maioria das vezes, as pessoas envolvidas trabalham em empresas durante o dia, e só podem se dedicar ao projeto após cumprirem suas obrigações. 

Outra grande dificuldade foi encontrar os animais, uma vez que a área está muito degradada. Até o próprio Toninho Mateiro, ex-caçador que trabalha no Parque Estadual Paulo César Vinha e nos ajuda a localizar os animais, disse que nunca viu uma área verde tão degradada. Todo pé de fruta tem um “jural”, uma espera que o caçador coloca em cima da árvore para surpreender a caça enquanto ela se alimenta. Lá, esse tipo de armadilha é comum.

Quais são os resultados positivos do projeto UR?

O livro do Parque de Setiba, lançado em 2006, o documentário e o livro do Parque Estadual de Itaúnas, e as ações de conscientização ambiental nas escolas, que já foram realizadas na Ponta da Fruta, em Itaúnas, e em Ilha Grande-RJ. Faz parte desse trabalho com as crianças exibir imagens dos parques e dos animais, realizar oficinas de desenho para exposição e interagir por meio de aulas e discursos que despertam a consciência e a preservação ambiental.

Quais os próximos passos do projeto UR?

No momento estamos em fase de finalização do documentário “Toninho Mateiro”, que será lançado em breve. Também estamos viabilizando uma revista de histórias em quadrinhos intitulada ‘Reinos dos Últimos Refúgios’, que dará suporte às ações em escolas e institutos. 

Outra idéia que está em fase de elaboração, é a criação de uma área de preservação particular do projeto UR aqui no estado. Essa idéia é inspirada nas ações realizadas pelo renomado fotógrafo Sebastião Salgado, juntamente com o Instituto Terra, que fica em Aimorés, Minas Gerais. O Instituto Terra é uma área de preservação na região onde Sebastião Salgado nasceu. Ele adquiriu uma porção de terra e reflorestou, e isso já tem uns 10 anos. Esse santuário recebe pessoas de vários países, que realizam pesquisas e estudos na região. Por fim, fui convidado para realizar um trabalho fotográfico para ele no Instituto Terra, registrando fauna e flora. Estou muito animado. 

Posso dizer que a minha viagem para a Alemanha rendeu incríveis passeios que, registrados pela fotografia, mostram os detalhes das cidades, da cultura e das belezas naturais presentes naquele país e no seu entorno. O resultado desse trabalho realizado na Europa vai resultar em um livro para o ano que vem!

Nós também estamos buscando patrocinadores para aplicar o Projeto Últimos Refúgios na Reserva Biológica de Duas Bocas e também no corredor ecológico criado pelo IEMA entre Forno Grande e Pedra Azul. Tenho certeza de que o projeto UR será de fundamental importância para o levantamento de informações relevantes para a preservação dessas regiões. Também acredito que qualquer empresa que for vinculada a este projeto agregará muito valor a sua imagem perante a sociedade. 

Que mensagem você deixa para os leitores interessados nesse tema tão importante para a civilização?

Eu sempre argumento que as pessoas só preservam o que elas sabem que existe. É pra isso que serve o nosso projeto, pra mostrar o que ainda existe e o que pode ser feito para preservar os ecossistemas e toda sua diversidade. Assim, convido todos para o evento de comemoração de 20 anos do Parque Estadual de Itaúnas, durante os dias 11, 12 e 13 de novembro. Lançaremos o livro no dia 11, e a exibiremos do documentário no dia 12, na sede do Parque Estadual em Itaúnas.

Lembrando que também em novembro entre os dias 22 e 27 vai acontecer a Feira do Verde 2011, na Praça do Papa, em Vitória, e contará com a exibição do documentário, de fotografias e do livro Parque Estadual de Itaúnas. O stand dos Últimos Refúgios vai estar ao lado do stand “Caçadores de Cachoeiras”. Por fim, quero agradecer o Coletivo Expurgação, que é a força dos nossos projetos, e os meus familiares por acreditarem nos meus sonhos e decisões. 

 

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