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Lançamento de Dramaturgias em Livro

Nesta terça, 09/04, a partir das 19h, rola o pré-lançamento de Corpo de delito & Rip e Cal, livro de dramaturgias de Saulo Ribeiro.

O pré-lançamento faz parte da programação de inauguração da Má Companhia, um espaço cultural que abrigará artes cênicas, visuais e literatura. Trata-se de um charmoso casarão no Centro de Vitória, onde estão sediados os grupos teatrais Repertório e Z.

O evento contará ainda com shows de Jonias Feli e Priscila Milanez, além de exposição dos artistas: Luara Monteiro, Raphael Araújo, Ignez Capovilla, Ivna Messina, Thais Apolinário e Márcia Capovilla.

O endereço:
Rua Professor Baltazar, 152, Centro, Vitória. (ladeira de pedras nos fundos da Catedral Metropolitana).

SOBRE CORPO DE DELITO & RIP E CAL

Por Berilo Luigi Deiró Nosella.
(Professor do curso de Artes Cênicas da Ufop)

“Todo mundo precisa de um pensamento que alenta.”

“Cal – Tem hora que dá vontade de morrer.

Rip – E por que não morre?

Cal – Vontade de assistir o final. Ver as letras: The end.”

A aridez, um tanto pessimista, uma espécie de retrato catastrófico de fundo, em contraposição a certo “alento” (insuficiente talvez) “metafísico”, presente na dramaturgia de Saulo Ribeiro, nos conduz a um caminho incômodo, mas nem por isso desprazível. A dramaturgia de Saulo tem supresso de seu íntimo a forte estrutura imaginada de cena. Não há ali facilitadores. Não transparece a preocupação com a clareza de uma imagem concretizada, numa espécie de antecipação da cena. Há a afirmação de que a dramaturgia, enquanto texto, tem outras questões a aprofundar, mais literárias do que cênicas.

Nesse contexto, o texto de Saulo confirma o lugar do autor, do escritor teatral; inscrevendo-se na contramão da afirmativa de que o texto de teatro só tem razão de ser para e no palco. Não se trata de negar esta vocação do texto dramático, o palco, à dramaturgia de Saulo, mas, ao contrário, de afirmar sua riqueza como texto, e, na sequência e por isto, sua riqueza como possibilidade de cena.

Antonio Candido afirma que não há “nada mais importante para chamar a atenção sobre uma verdade do que exagerá-la” e que “também nada mais perigoso, porque um dia vem à reação indispensável e a relega injustamente para a categoria do erro” – algo assim me parece ter acontecido nos meios do debate sobre as inúmeras e complexas relações texto x cena teatral.

Entre os caminhos de abertura, fundamentais, que o século XX conquistou às amarras que a referida relação sofreu na tradição classicista do século XVII e XVIII, restou meio abandonada, me parece, a percepção da riqueza que o literário, em sua especificidade, sempre proporcionou à cena. Foi o literário que libertou a cena, no final do século XIX, de suas amarras. Já no século XX a crise do texto em relação à encenação, isto é interessante, dá-se numa radicalização de um texto altamente elaborado, por mais que isso possa parecer uma contradição: crise do texto num texto altamente elaborado. A história nos mostrará que não. No início do século XX, autores como Beckett – claro tributo em Rip & Cal – empreenderão revoluções formais ao teatro a partir do texto, problematizando-o em suas próprias questões, textuais, literárias. A partir do texto a dramaturgia contemporânea nos apresenta a incapacidade do texto como forma de expressão em si mesmo.

Mas há que se estar atento à “reação indispensável”. A dramaturgia, espaço entre literatura e cena, volta a reivindicar seu lugar em nossos dias, haja vista a nova safra de escritores dramaturgos que figuram nossos quadros atuais. Saulo Ribeiro engrossa esse caldo, produzindo uma obra dramática que revigora a potencialidade literária que uma palavra, uma frase, uma expressão abrem para suas leituras; desdobradas futuramente em novas leituras na cena; numa operação de sobreposições e nunca de substituição.

Neste sentido ela liga-se à experiência já referida da dramaturgia do século XX que, metalinguística, no olho do furacão, toma consciência sobre si mesma: “Cal – Mas podemos propor um trabalho atoral e autoral em cima disso, talvez funcione. Mas não prometo nada. Rip – Promete que vai ficar bom, vai? Cal – Não posso prometer isso”. Corpo de delito & Rip e Cal, teatro para ser prazerosamente lido, o que não quer dizer não encenado.

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