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A ficção científica em Frankenstein e Guerra dos Mundos

A ficção científica consiste em narrativas que abordam questões a cerca das dimensões políticas, econômicas, sociais e culturais de um universo imaginário perpassado por concepções racionais e surreais, o que permite a diluição de fatos em meio à fábulas.

Seja em um momento adiantado no tempo – ou num passado distante -, as sociedades retratadas na ficção científica encontram-se essencialmente imersas em cenários repletos de aparatos tecnológicos, e a ciência biológica encontra-se altamente desenvolvida.

O meio em que é desenvolvido a história ficcional pode ser considerado o fruto da narrativa psicológica do ser humano de acordo com o contexto histórico no qual encontra-se inserido, o que reflete substancialmente em suas projeções sobre o futuro de sua sociedade, embasados em descobertas científicas contemporâneas e especulações que emergem paralelo ao desenvolvimento científico e tecnológico.

É conveniente contextualizar a gênese da narrativa classificada como ficção científica nos primórdios do século XIX, em meio à efervescência técnica e maquínica da Revolução Industrial, embora a narrativa da literatura grega, a Odisséia, de Homero, seja considerada “a primeira grande obra de ficção científica do Ocidente”, (OLIVEIRA, 2002). Dessa forma, seriam então os antigos épicos em sânscrito, Mahabarata e Ramayana, as primeira ficções científicas do Oriente?

“Até o século XIX, romances de ficção científica eram raramente produzidos. Uma das razões é que a maioria das pessoas não via na ciência grandes possibilidades de mudança. Mas a Revolução Industrial forneceu a prova de que invenções como as máquinas têxteis e o navio a vapor, entre inúmeras outras, vieram – como resultado do avanço científico – para mudar os caminhos da humanidade. Com isso, as possibilidades da ciência passaram a ser muito mais respeitadas e a ficção científica se consolidou enquanto gênero literário”. (PIETRAROIA, 2004)

A obra Frankenstein, de Mary Shelley, publicada em 1817, é considerada a primeira grande obra de ficção científica, (OLIVEIRA, 2002). Sendo contemporânea à Era Industrial, sua trama baseia-se em temores e anseios que emergiram nessa época, sendo este um contexto de intenso progresso tecnológico e também de indagações a cerca do desenvolvimento científico vigente. “Dentre estas especulações, estava inclusive a possibilidade de recriar-se a vida a partir da eletricidade”, (PIETRAROIA, 2004), e é com base nesse temor que surge a narrativa Frankenstein, onde “a criação de um ser híbrido ameaça as fronteiras entre homens, animais e máquinas”, (OLIVEIRA, 2002).

“Em 1791, o anatomista italiano Luigi Galvani gerou verdadeira euforia ao demonstrar que músculos de sapos mortos se contraíam quando submetidos a choques elétricos. Os chamados experimentos “galvânicos” multiplicaram-se velozmente por toda a Europa e o entusiasmo dos cientistas era incontido. Tais experimentos consistiam em tentar reanimar corpos ou partes de corpos recém-falecidos a partir de choques elétricos. A eletricidade passou a ser vista como um “fluido vital”. A consequente contração muscular conduzia os cientistas à ilusão de estarem logrando reconstituir a vida à matéria morta, por alguns segundos pelo menos”. (PIETRAROIA, 2004)

Dessa forma, a narrativa criada por Mary Shelley caminha paralela aos anseios gerados com os experimentos galvânicos, com a adição do viés questionador a cerca da prática dessa ciência em seres humanos, e o temor do resultado de uma experiência quimérica dessa magnetude.

A possibilidade da existência de civilizações extraterrestres também exerce influência sobre a imaginação dos humanos há tempos. O anseio por contato, o desejo de expandir horizontes de conhecimento, e a ambição de que um fato histórico como esse possa vir a acontecer durante a existência de sua geração, fazem alguns humanos devanearem a respeito. Sobretudo, se cientistas declararem tal fato como verdade, quem será o leigo que irá de encontro a afirmação de um especialista, afinal.

“Para milhões de pessoas, a disputa espacial parecia fascinante quando havia um destino. O planeta Marte foi um dos primeiros. Com um décimo da massa da Terra, Marte supostamente abrigava organismos vivos. Foi Giovanni Schiaparelli, em seu observatório nos arredores de Milão, quem examinou Marte em 5 de setembro de 1877, dia em que o planeta estava próximo da terra e a atmosfera sobre aquela cidade industrial estava limpa. Focalizando o distante astro com seu telescópio, acreditou ter avistado o contorno de 41 longos canais ou leitos de rio. Se fossem canais, argumentou, deveriam ser ‘obra de seres inteligentes’”. (BLAINEY, 2008, p. 223)

Traduzido diretamente do italino ‘canali’, acreditava-se que estes – assim como os aquedutos clássicos do império romano – transportavam água dos pólos congelados de Marte para ambientes sob o solo, onde os supostos marcianos viviam, lutando pela sobrevivência contra a suposta eminente extinção da espécie marciana, (PIETRAROIA, 2004).

“Contudo, quem liderou a crença de que os canais marcianos teriam sido construídos por uma civilização avançada, foi, sem dúvida, o astrônomo norte-americano Percival Lowell (1855-1916). Ilustre membro de uma família aristocrata de Boston, Lowell fundou um observatório particular, em Flagstaff, no Arizona, onde a distância das cidades e o ar seco tornavam a visibilidade excelente. O observatório era devotado especificamente para o estudo de Marte e foi inaugurado em 1894″. (PETRAROIA, 2004)

Inspirado nas divulgações do observatório de Lowell sobre Marte e a possível existência de uma raça extraterreste na beira da extinção, difundidas em 1895, o escritor H .G. Wells escreveu a obra de ficção científica intitulada A Guerra dos Mundos, no ano de 1898, onde discorreu sobre a possibilidade dos marcianos, em prol da sobrevivência de sua espécie, viessem dominar a Terra.

Consagrada como uma obra de ficção científica nos Estados Unidos, com o passar dos anos essa história se tornou um clássico desse gênero literário. Contudo, o povo americano foi impelido a recordar a história contada por H. G. Wells, quando Orson Welles transmitiu uma versão do livro em formato de rádio novela, no ano de 1938, fato que desconcertou e assombrou uma grande quantidade de espectadores americanos. (PETRAROIA, 2004)

Quando, em 1938, Orson Welles transmitia sua “A Guerra dos Mundos”, a memória coletiva do futuro sobre Marte já estava suficientemente consolidada a ponto de o programa aterrorizar um milhão de cidadãos! (PETRAROIA, 2004)

Ambas as obras citadas, sobre a prespectiva dos estudos realizados pelos autores Oliveira (2002) e Petraroia (2004), Frankenstein e A Guerra dos Mundos,  foram influenciadas por contextos históricos de descobertas científicas que exerceram uma grande influência na cultura mundial, tornando-se clássicos do gênero literário de ficção científica. Sendo assim, pode-se concluir que a ficção é criada a partir da realidade, e de como os sujeitos desta se comportam perante descobertas científicas inesperadas que podem vir a afetar a vida de toda uma sociedade, bem como de uma civilização planetária por completo.

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