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Entrevista com Fábio Mozine (Laja Records)

No ano de 2009 tive a oportunidade de fazer parte de uma mini turnê coletiva, a “Noites Omelete Marginal”,  acompanhado por bandas e artistas como Solana, Casaca, Joe Zee, André Paste, Gustavo Macaco, entre outros.

Como integrante da caravana, na função de agenciar as relações públicas nas cidades visitadas por ser um sujeito bem relacionado, estava o personagem principal deste post e (por que não arriscar tal assertiva?) uma das principais figuras do submundo do Hard Core: Fábio Mozine.

Foi dentro desta conjuntura de turnê, após um episódio inusitado em que Fábio, às 7h da manhã, esbravejante e histérico por ficar sabendo que minha banda fez uma releitura de uma música do Mukeka di Rato, entra aos berros de “Cadê aquele Fepaschoal?! Fepaschoal, vou te matar, maluco!” num quarto de albergue onde, além de minha pessoa, dormiam mais uns doze, que iniciou-se nossa “brodagem”. “Brodagem” esta que permitiu uma entrevista bem despojada e sem muito compromisso com parâmetros jornalisticos.

Mozine é músico e toca em bandas de rock bastante influentes na cena do Hard Core nacional e internacional. Também é patrão e operário na empresa, que começou como selo, Laja Records, que, hoje em dia, além de distribuir discos, é uma espécie de grife de roupas e acessórios que é fetiche para muita gente.

Fepas: Oi Fábio, tudo bem?

Mozine: Oi Fepas, tudo bem sim, e com você?

F: Fábio, você pode nos contar como começou sua relação com a música? Primeiros discos que te comoveram, primeiro instrumento, essas coisas…

 M: Acho que teve origem com meus pais, com o meio em que eu vivia e com amigos.  Com meu pai aprendi (mesmo que por osmose) a ouvir bandas cabeça como Raul Seixas, Taiguara, Chico Buarque, Vandré, etc.  Ele sempre colocava pra ouvir desde muito cedo mesmo, 5 aninhos de idade, discos do Taiguara e ficava me contando as historias de ditadura, como que Roberto Carlos era um bossal, que nunca tinha feito nada pelo povo brasileiro, etc.  Já minha mãe, ao contrario.  Era fanzona de jovem guarda, ia nos shows, se vestia igual aquelas moça la da época e falava que eu tinha que gostar de Éramos, Roberto, além de bombardear nossa casa com radinho AM todo santo dia.  Muitas dessas musicas que ouço hoje em dia, já fazem parte do meu sub consciente graças a Dona Izaura.  Já em coqueiral de Itaparica, onde passei a esmagadora parte da minha infância e adolescência,  ouvia samba e pancadão.  Samba eu ouvia na praia onde freqüentava freneticamente com meu pai e mãe.  Nos quiosques dos amigos do meu pai tinha roda de samba, pagode sendo tocado no radio, etc.  Todas as sextas, sábados e domingo eu passava o DIA TODO NA PRAIA com meus pais, tipo das 8 da manhã as 18h.  No ITC (Itaparica tênis club) e nas casasde todos os vizinhos da gente na primeira etapa, tinha a furacão 2000 tocando. Ou seja, eu saia com os caras pro ITC aonde tocava funk, já conhecia as musicas e gostava de algumas, tinha uns M2000 cor de abobora, etc.

  Mas ai quando fui ficando jovem, busquei o rock por conta própria. Rock era tudo que não era as musicas que citei anteriormente.  De ultraje a Iron maidem, mas no meio já aparecia uns discos do Sarcófago, vindos de BH.  Passei pelo rock clássico como deep purple, led Zeppelin e black sabath, que eu ouvia com um grande amigo chamado Lucio Blackmore, que já faleceu.  Esse cara vendia fitas de vídeo VHS de rock clássico.  Depois com alguns amigos vindos de Brasília (Frank, era um deles), comecei a ouvir punk e bandas mais trhash como Anthrax, Slayer.

  Acho que minha “formação musical” tem muito disso que eu disse ai em cima.  Eu consegui passar por todas essas situações de influencias externas, sem em nenhum momento ter vestido a indumentário do “EU SOU FUNKEIRO” por exemplo, mas em determinados momentos, como quando comecei a escutar punk rock, nunca ter rejeitado por completo que sim, já tinha ouvido samba sim, que eu ia no ITC ouvir funk, e continuar convivendo com essa galera na boa.

   F: Você foi um jovem problemático? Dava muito trabalho para Dona Izaura?

   M: Não muito, acho que eu era bonzinho e carinhoso, na verdade ainda sou.  Mas eu era      meio nervoso, as vezes tinha uns surtos, umas bravezas, mas eu era um menino bom, as minhas coisas erradas q eu faziam eram sempre mais prum lado divertido, da criatividade e nunca problemássos.

  F: Você já tocou em quantas bandas? Quais?

  M: Muitas bandas.  Revolta Social, Carcará, e outras tantas bandas virtuais, que meio que nunca existiram, mas tem musica feita, tipo, Geração a Jato, Jibóia Negra, Dr Mobral, Tenébrio Peixoto, além das conhecidas Mukeka di Rato, Merda, Os Pedrero.  Já toquei num cover de Roberto Carlos, e já devo ter feito outras coisas que estou esquecendo agora.

F: Olhando sua longa carreira, você se arrepende de alguma coisa?

M: Já sai dessa onda de ficar me arrependendo das coisas, porque sinceramente eu acho que me encontro numa situação muito legal hoje em dia.  Eu gosto do que eu construi e acho que vivo bem com a musica e com a produção musical.  Viver bem que eu digo é estar feliz com o que eu produzo e como produzo.

Mas se for pra remoer mágoas, sim, eu tenho duas:

 1)      não ter aceitado uma puta oportunidade de contrato com uma major que tivemos no finalzinho dos anos 90.  Se eu tivesse aceitado, talvez hoje tivesse na bosta e sem prestigio, mas talvez não

2)       não ter me jogado com o mukeka di rato para Europa logo após ter gravado o gaiola.  Eu queria ter ficado de 3 a 6 meses na Europa, largado, igual o los crudos tava fazendo e ter escrito a historia do mukeka na cena hc européia, coisa que hoje não existe de forma tão contundente como de outras bandas de hc nacional.

  F: As letras e músicas de bandas como o Mukeka levaram algumas gerações de jovens à iniciação em uma senda de pensamento politizado, consciênte da realidade de opressão, manipulação e hipocrisia que assolam a sociedade em um modo geral. Eu mesmo conheço pelo menos uns cinco. O que você pensa disso?

  M: Nossas letras sempre foram muito subjetivas.  Lembre-se que varias delas eu escrevi quando tinha 19, 20 anos, acho q não tinha tanta maturidade para ficar dando conselhos pros outros, e acho que nem hoje em dia tenho e nunca terei.

  Mas nada me impede de escrever numa folha de papel as coisas que eu penso. Algumas bandas de rock ajudaram a moldar o meu caráter e muitas coisas do meu pensamento.  Caso o mukeka ou alguma banda minha tenha mudado alguma coisa em alguma pessoa, e a gente possa classificar essa mudança como positiva, eu já me dou por satisfeito, mas não quero carregar esse fardo, do tipo, o bom homem o bom letrista que mudou a vida de um jovem.

Deus me livre bicho.  Fico feliz se alguma palavra que escrevi ajudou a vida de alguém, mas quero que a pessoa atribua isso a ela mesmo, pelo fato de ter percebido algo na nossa musica, e não a nós nem a nossa banda.

F: Você chegou a fazer uma campanha para o fim da banda Mukeka di Rato. É uma vontade real ou mais uma piada normal desse seu estilo jocoso?

M: Piadinha idiota, stand up comedy do Fabio.  A piada era interna, do tipo.  Vamos tocar num festival grande, tem 5 mil pessoas la embaixo, a guitarra ta com as cordas todas enferrujadas, a gente não levou pedestal de prato ta tendo que pedir emprestado em cima do palco pra outra banda e eu não tenho palheta.  Isso é o retrato mais fiel do que é o mukeka di rato as vezes.  E a gente acaba brincando com isso, tipo, o banda escrota, caralho, 10 anos de banda, nego não tem palheta, puta que pariu mukeka, acabe.  E isso virou camisa, de zoeira.  Mas não seria nada mal acabar um dia, mas acho q rola um pouco mais de vida pra gente.

F: Você tem vontade de fazer um som menos voltado para o Rock?

M: Muitíssima, eu tenho um projeto chamado Tenebrio Peixoto, tenho musicas que eu considero muito legais, mas a minha voz normal, quando eu tento cantar mesmo é patética, eu não gosto de me ouvir, acho (e é) desafinada, ou seja, só sirvo pra gritar mesmo no merda, os pedrero e mukeka di rato.  Mas tenho muita vontade de tocar brega.

F:Vamos falar de crack? Acompanhando suas composições e criações como o personagem Crackinho, podemos ver uma abordagem debochada de um problema de saúde pública que assola muita gente. Você já recebeu alguma crítica ou retaliação por isso?

 M:Criticas e Retaliações explicitas não, mas sempre alguém fala: cara, fica de olho heim?  Mas velho, observe a historia das minhas bandas e do selo laja records.

- Rogéria, um papagaio travesti com um cifrão pendurado num cordão.

- Jessica, um onça

- O motoqueiro doido

- um cachorro rosa que vomita e é logotipo do merda

- uma dupla chamada Cavera e Macaco.

Ou seja, eu sempre criei uns personagens NO SENSE pras bandas e pra gravadora.  O Crackinho é isso.  Sabe, não queria ter que inventar uma explicação pro crackinho, para ficar caracterizado que isso não é uma apologia as drogas, sacou?

Mas infelizmente eu já fiz isso, mas td bem, é uma hisotria linda.  A questão toda é, o crackinho é apenas o crackinho, é uma pedrinha de crack sorrindo, um desenho, eu não tenho que ficar explicando desenho, explicando a piada, mas tudo bem, é melhor fazer isso.

  É a mesma coisa do cara explicar porque o pica pau fala no desenho, se na vida real, pica paus não falam.

  Eu já tive diversos problemas com droga e com crack, já tive minha casa furtada mais de 4 vezes por nóias, um amigo morreu de crack, vários outros morreram por outros motivos associados as drogas, vários outros foram ou estão presos, já vi nego se fuder de carro, quase eu Tb já tive problemas, já vi gente sair na porrada, ser jurada de morte, ficar doente, ou seja, é um problema que esta muitíssimo próximo de mim e não apenas num lugar distante chamado crackolandia, não seria louco, cego ou burro de fazer apologia a uma desgraça dessas, é apenas um desenho, um personagem non sense.

F: Ultimamente vimos diversos lançamentos praticamente simultâneos de suas bandas e da Laja, como discos, dvds e videoclipes. O rítmo sempre foi frenético assim ou a maré que tá boa? Você se considera um Workaholic?

M: Completamente workaholic, ansioso, hiperativo, sou doente.  Eu tento criar um cronograma de lançamentos na minha cabeça, mas algumas coisas fogem do controle.  Semana passada saiu o clip do merda quase no mesmo dia que saiu o clip do mukeka.  Isso é ruim, mas não sou uma multinacional com uma mega equipe planejando tudo,  muitas coisas são feitas na base da brodagem, com amigos testando imagens, aprendendo a fazer clips, ou simplesmente te dando os clips por afinidade com a banda, por vontade de fazer, ai acaba saindo tudo ao mesmo tempo.  Talvez o certo fosse um segurar um dos clips (nesse caso ai), colocar na gaveta, esperar, mas sinceramente sou muito ansioso pra isso, chegou ta lançado, jogo no youtube, pronto.

Mas algumas coisas obviamente eu vou tentando segurar até porque noa teria grana pra fazer tudo ao mesmo tempo.  Tenho dois CDs do mukeka que estão pronto para serem lançados em vinil, mas estou esperando, vou lançar o DVD do mukeka no Japão antes, esperar uns 2 meses, lançar um vinil, depois o outro.

Gravação do clipe da música

  O foda é que oportunidades aparecem e as vezes vc não pode perder.  Foi assim que lancei o LP duplo do ratos, o gordo me ligou e falou, ai Mané, quer lançar? Mas tem que ser pra ontem!!!! E tipo, você se coça, arruma grana, mete ali no meio, etc.

F: Se alguém cospe cerveja na sua cara durante um show, você se zanga?

 M: Depende, o cara pode te chamar “ai seu filho da puta” e isso pode ser um elogio, vai depender do momento, local, hora, humor, de como ele fala isso, a entonação, etc.  Mas pra garantir, não cuspa nada em mim.

F: Eu me lembro que uma vez conversavamos na porta de um clube noturno quando um jovem chegou pedindo pra te dar um abraço, dizendo que te amava. Como você reage ao assédio dos fãs?

 M: Pra mim isso será eternamente estranho e bizarro, fora de sentido, mas eu tento entender de uma forma carinhosa e tratar o cara de forma normal.

  Um ex integrante uma vez falou para um fã:  “cara, não vou te dar autografo, não sou melhor que vc, somos todos do hardcore”

  Nunca vi um menino tão decepcionado como aquela cara, que queria apenas uma assinatura num disco e saiu dizendo que o cara da nossa banda era um babaca.

  Eu tenho vários discos assinados, pelos caras do fuck on the beach, hellnation, bandas grandes, e não me considero fãnzoca de ninguém, só queria ter aquele disco assinado.

  Agora há uma frase, que deve ser observada:  “O PUXA SACO DE HOJE É O ZÉ BUCETA DE AMANHÔ

 Abre o olho John Lennon.

F: Você já expurgou?

M: v.t. Limpar, corrigir, sanear.

Fig. Livrar do que é prejudicial, nocivo: expurgar a sociedade dos seus maus elementos.

Sim, já expurguei e ainda expurgo de tempos em tempos.

F: Mande seu recado pra quem estiver lendo.

 M: Espero que as respostas não tenham sido muito chatas, grandes ou verborrágicas, mas as vezes quando respondo rápido pareço que tenho dislexia.  Abraço a todos.

Laja Records

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