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Dimensões da Sustentabilidade

Questões relacionadas com a preservação do meio ambiente para futuras gerações se tornaram mais visíveis durante a década de 80, quando pesquisas científicas começaram a apontar os prejuízos causados pela atividade industrial desprovida de responsabilidade social. 

Nessa época o termo sustentabilidade foi vislumbrado em 1987, através do Relatório de Brundtland cuja máxima era: “suprir as necessidades da geração presente sem afetar a possibilidade das gerações futuras de suprir as suas”.

Na década de 90, a ecologia passou a fazer parte da pauta de discussão global sobre a importância de políticas públicas voltadas para a preservação da biodiversidade. Sendo assim, o termo “sustentabilidade” foi consolidado na Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO-92), realizada em 1992 no Rio de Janeiro.

Esse novo contexto jurídico no qual as atividades comerciais passaram a ser vigiadas por ecologistas, ambientalistas e ONG´s em defesa da natureza obrigou indústrias a adequarem seu sistema produtivo ou a criarem formas de maquiar o impacto das próprias atividades. Logo, por meio da linguagem publicitária, o termo sustentabilidade amenizou as eco perseguições e também desenhou um novo rumo para a era industrial.

Com ajuda do Marketing o empreendimento passou a ser visto como uma extensa cadeia produtiva contendo fornecedores, sócios, empregados, colaboradores, distribuidores, comunidade… Admitindo a harmonia entre todos os envolvidos direta e indiretamente com o empreendimento, o emprego do termo sustentabilidade passou a representar aspectos ambientais, sociais e econômicos dessa cadeia.

No entanto, novas concepções a respeito da sustentabilidade vêem ampliando o significado e a própria aplicação do termo. Um bom exemplo disso pode ser encontrado no livro Espiritual e Sustentável”, de  Sidemberg Rodrigues (2010, p.29): “o conceito de sustentabilidade não se apóia apenas no tripé econômico, ambiental e social; A sustentabilidade tem seis dimensões: Econômica, Ambiental, Social, Política, Cultural e Espiritual”. Segundo Sidemberg (2010), é preciso enxergar todas essas dimensões para que sejam elaboradas formas de amenizar as desarmonias materialistas realistas exaltadas pela sociedade de consumo:

“Quase sempre ilustro o modelo de seis dimensões com a idéia de um malabarista de circo, que tem de manter seis pratos girando na ponta de varinhas de bambus. Cada prato corresponde a uma dimensão. Assim, há um prato social, um econômico, um cultural, um ambiental, um político e um espiritual. Caso um perca a força, deve ser energizado pelo malabarista. Talvez a força que mova os pratos seja a dimensão Espiritual. Isto é, o próprio malabarista. Quero dizer que, cada pessoa que atua em uma das dimensões, deve ser movida pela inspiração de manter o prato pelo qual se responsabiliza girando a contento. Não há nenhum prato mais importante que outro. Todos devem ser mantidos a pique, harmonicamente, expressando o equilíbrio entre as dimensões. Isso é sustentabilidade” (Sidemberg. 2010, p.32).

A fim de justificar a relação da dimensão espiritual com as demais dimensões, Sidemberg (2010) afirma que o senso de pertencimento é parte indissociável do sistema de relação do homem com seus semelhantes e com o meio, portanto, é também um impulso positivo na direção do amortecimento de suas atividades irresponsáveis.

“Porque em todos os grupos de partes interessadas há pessoas. E as pessoas nem sempre desprendem-se totalmente dos seus interesses individualistas, quer estes estejam ligados à vaidade, ao desejo de poder ou, diretamente ao dinheiro em si. Isso nos trás a idéia expressa pelo conceito de “Senso de Pertencimento”. Esse é o tamanho do território – geográfico ou social – ao qual a pessoa se liga (a si mesma, à família, à comunidade, à cidade, ao estado, ao país, ao planeta… ao Universo). Quanto maior o raio desse território, maior o “Senso de Pertencimento” da pessoa. Esse está dentro da dimensão espiritual, porque está vinculado a aspirações arraigadas à essência da alma humana, assim como a ideais coletivos e universalistas. Pode evocar sentimentos como solidariedade, respeito ao que está fora de si e, sobretudo, à ética da convivência. Ou pode ser movido por restrição interesseira de ótica, avareza, egoísmo e ódio, se não for espiritualmente expandido. Uma vez ampliado, traz efeitos positivos diretos ao que se deseja na esfera da sustentabilidade” (Sidemberg. 2010, p.30).

Existe um paralelo entre o que Sidemberg convencionou chamar de “senso de pertencimento” e o que Humberto Maturana e Francisco Varela (1997) convencionaram chamar de “acoplamento estrutural”. Esse paralelo se dá pela forma como a estrutura (interface) do ser vivo interage com as perturbações do meio, considerando as conclusões das ciências humanas e as características da estrutura da linguagem. Portanto, o acoplamento estrutural parece tratar especificamente do processo de interação entre estruturas, o que de certa forma contribui para o senso de pertencimento do Ser à realidade do meio através dos objetos e signos culturais – a perigo de ser convertido ao código do standing.

Apesar de ainda guardar uma conotação puramente ambiental e publicitária, o termo sustentabilidade passou a ser entendido por diversos ângulos, graças a contribuição de teóricos dedicados. Assim, a metáfora idealizada por Sidenberg ilustra um novo horizonte para a sustentabilidade, repleto de aplicações e experiências que ainda serão vividas e compreendidas.

No entanto, transformar uma percepção individualista em uma conclusão realmente coletiva implica na criação de mecanismos de transformação cultural, social, política e econômica, que estejam em sintonia com o meio ambiente e com as premissas humanistas de caráter universalista. Portanto, identificar malabaristas que reagem positivamente ao enfraquecimento do giro dos pratos é tarefa trivial das instituições públicas e da indústria, se o objetivo principal for encontrar novas formas de estabilização do processo produtivo, que não sejam ameaçadoras ou nocivas para as civilizações  hiper-modernas.

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